Reconciliados com Deus


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4º Domingo da Quaresma

Leituras Bíblicas: Sl 32/ Js 5.9-12/ 2Co 5.16-21/ Lc 15.1-3,11-32

O grande teólogo Karl Barth iniciou seu ministério pastoral, no início do século XX, no contexto da Primeira Guerra Mundial. Safenwil, a pequena cidade suíça onde ele era pastor, estava distante das bombas, dos tiros e da visibilidade da dor e do sofrimento humano, frutos da guerra. Porém, mesmo lá, na pequena Safenwil, Barth tomava conhecimento pelos jornais e pelo rádio da brutalidade da guerra que se abatia sobre a tão civilizada e cristã Europa.

Ele também tomava conhecimento, boquiaberto, que seus antigos professores no Seminário Teológico, apoiavam a Alemanha na guerra, produzindo textos, cultos e orações em favor da nação alemã. Barth ficou escandalizado em ver cristãos compromissados com o ensino da Bíblia apoiarem tal coisa. Ele não apenas questionou os atos dos que assim se comportavam, como também questionou a teologia que aprendera com esses teólogos que apoiavam a guerra.

Foi além. Percebeu que a teologia que aprendera e que procurava transmitir em seus sermões na Igreja Reformada de Safenwil aos seus eclesianos, cuja maioria era de camponeses, não os alimentava com o “Pão da Vida” e questionamentos acerca da realidade do entorno saía das bocas dos seus paroquianos, sem obterem respostas que davam conta dos problemas suscitados a partir de tais questionamentos.

Barth, então, reviu tudo. Questionou. Produziu. E desta produção saiu o que ficou conhecida como a “Teologia da Crise” ou “Teologia Dialética”. Barth escreveu o comentário da Carta aos Romanos, livro recebido como uma verdadeira bomba no playground dos teólogos (palavras de Karl Adam, teólogo católico). Karl Barth, a partir de então, tornou-se o mais importante e célebre teólogo do século XX.

A Teologia da Crise ou Dialética voltava às fontes. Declarou que a teologia produzida até aquele momento era uma teologia do homem, para o homem, que tratava do homem. Deus não tinha lugar nesta teologia, logo, o homem em busca de Deus, tanto os assolados pela guerra como seus camponeses paroquiais de Safenwil, não encontravam as respostas que buscavam às perguntas que os inquietavam.

Um dos pressupostos de Barth era que qualquer religião ou religiosidade era trabalho infrutífero humano. Uma empreitada dessas, nas palavras de Barth, jamais teria sucesso. É obra anti-divina a busca do homem pela auto-justificação que os leva a Deus. Tal justificação só pode vir de Deus. O encontro do ser humano com Deus é iniciativa divina e enquanto o ser humano não entendesse isso, nenhum encontro seria realizado.

O contexto teológico e eclesiástico que vivemos, nós, seres humanos do século XXI, é parecido com o de Karl Barth. Tal como o início do século XX, os pregadores do Evangelho, os pastores e pastoras, os professores de Teologia de hoje (uma maioria), são os grandes responsáveis pela fragilidade da fé neste início do século XXI. Por isso, o que esses produzem neste momento não dá conta das perguntas e questionamentos que os seres humanos do nosso século fazem.
É impressionante o misticismo, no que este tem de péssimo, de maléfico, de ruim, que se expande exponencialmente no Brasil. É impressionante as igrejas, até mesmo algumas inclusivas, que estão aderindo este tipo de cosmologia. Tudo isso está refletido claramente em seus cultos, sermões e jeito de ser igreja: campanhas, vendas de objetos ditos com poderes mágicos, pregações que enfatizam o vão esforço humano, incentivo da barganha com Deus nos pedidos das bênçãos e por ai vai...

Podemos dizer, sem medo de errar, que, mutatis mutandis, vivemos numa era muito semelhante à que Lutero viveu em seus dias de questionamento da espiritualidade que a Igreja Romana ensinava naquela época. Hoje são muitos os “Tetzels” que saem por ai vendendo indulgências a peso de ouro: você quer ser perdoado por Deus? Entre aqui em nossa igreja, persevere aqui, contribua com seu dízimo aqui, esforça-te para ser um santo e então, e somente então, você encontrará Deus e serás perdoado.

Podemos falar de outros maléficos misticismos: o que são as visões espirituais de hoje? As falaciosas profecias que só dão conta do carro que o sujeito vai ganhar, do belo salário que “deus” preparou, do homem da vida, o tal varão que “deus” vai arrumar. Hoje em dia poucos dizem: “Deus me transformou; Deus me justificou em Cristo; a maioria diz: “desde que entrei nesta igreja, neste ministério, minha vida que estava completamente destruída foi transformada”, assim, a obra deixa de ser de Deus para ser da grei na qual o cara se encontra no momento.

A alta rotatividade nas freqüências de pessoas nessas igrejas é enorme porque elas não crescem e nem podem crescer num ambiente assim. Depois de satisfazerem suas urgências, pelo esforço próprio travestido de “palavra de deus”, elas saem sem olhar para trás. Quando retorna os problemas, pois seres humanos sempre terão problemas, eles então vão para outro ministério, principalmente se ali é um “ministério especializado”: como curas, prosperidade financeira, soluções de problemas urgentes ou “trazer o marido de volta em três dias”.

“Meu povo perece por falta de conhecimento” é o que Deus ainda diz pela boca dos seus verdadeiros profetas dos dias atuais. Sim, o povo tem padecido por falta de conhecimento. As ovelhas têm sido tosquiadas, manipuladas, cooptadas. Grande é a inanição espiritual dos nossos dias e muitos são os cadáveres dos que perecem!

O ser humano, por mais que faça, religiosamente falando, por mais promessas e votos que fazem ao Senhor, por mais dinheiro que doam aos cofres de suas agências eclesiásticas, por mais que freqüentem cultos e reuniões de oração, por mais que sejam fiéis aos ministérios nos quais se encontram - verdadeiros currais - por mais que sigam a cartilha e as listinhas de pecado e não pecados não sentem força e vigor espiritual. Não estão reconciliados com Deus. Não estão justificados com Deus e sentem isso em suas mentes e corações. Por quê? Porque, como disse Karl Barth, nenhuma obra humana é capaz de produzir o que somente Deus e a iniciativa de Deus é capaz!

Iniciamos o culto deste 4º Domingo da Quaresma com o Salmo 32. Este salmo é penitencial que exalta a alegria do perdão recebido gratuitamente, sem esforço humano, mas pela iniciativa de Deus: “Feliz de quem está absolvido de sua culpa, e cujo pecado foi enterrado! Feliz o homem a quem o Senhor não aponta o delito e cuja consciência não fica turvada” (versículos 1 e 2, segundo a Bíblia do Peregrino).

Consciência turvada! Assim ficam em suas consciências aqueles que, de alguma maneira, são induzidos a comprarem o perdão. Eles compram crendo que obtiveram o perdão, no entanto, ainda sentem o peso na consciência. Isso ocorre, porque perdão de Deus é artigo que não está à venda.

Ouvimos as palavras de Josué. O povo que com ele entrou na Terra da Promessa sabia o que era a Graça de Deus e o vão esforço humano. Eles, por mais que desejassem, não podiam produzir pão enquanto caminhavam no deserto. Não podiam criar gados e ovelhas na peregrinação. Por isso, Deus graciosamente concede-lhes o maná e a carne de codornas. De graça. Pela Graça. Gratuitamente. O que eles mereciam ou faziam por merecer? Nada, absolutamente. Pelo contrário, lemos nos registros bíblicos que o povo pecava e murmurava. Como eram tratados por Deus? Com o maná e as carnes de codornas! Isso é Graça!

Conduzidos por Deus, entraram na Terra da Promessa e cessou o maná, agora, podiam cultivar, foi obra de Deus isso! Cessou o maná, contudo, Deus os visitava com força, com vigor, com inteligência para trabalharem, isso é Graça! Podiam agora celebrar a Páscoa: a passagem de uma vida velha (de sofrimento, de peregrinação árdua, de escravidão) para uma vida nova (de forças, de vigor, de talentos, de paz, de liberdade).

Estamos já próximos da nossa Páscoa! Quantos são aqueles que não podem celebrar hoje, conosco, a Páscoa, pois se encontram ainda no Egito, escravos de faraós que os enganam! Eles até acham que estão na Terra da Promessa, mas não estão e a sensação falsa passa mais cedo ou mais tarde! Quantos não podem celebrar verdadeiramente a Páscoa, pois vive uma vida velha; pode ser que seus atos mudaram momentaneamente, pois condicionamentos comportamentais são eficazes até certo ponto. No entanto, não deixa de ser condicionamento. Lá, na essência, onde é produzida por Deus a metanóia, continuam os mesmos: vida velha, Egito, faraó, escravidão, não-páscoa.

Lendo os Evangelhos tomamos conhecimento de um grupo de pessoas que se chamavam fariseus. Jesus topou de frente com os fariseus muitas vezes. Na verdade, os fariseus não gostavam de Jesus, atazanavam a vida de Jesus, buscavam pegar Jesus pelas palavras dele para assim o condenarem à morte. Os fariseus provocavam Jesus com pegadinhas, murmuravam contra Jesus e contra os atos de Jesus. Não gostavam das companhias e dos companheiros de Jesus.

Em Lc 15.1-3,11-32, está registrado mais um encontro de Jesus com os tais fariseus. Na ocasião, eles murmuravam contra Jesus, pois Ele andava e comia com pecadores. Você pode pensar: e o que tem demais isso, afinal, não somos todos, pecadores? Aqui reside o problema do fariseu – o de ontem e o de hoje.

Os fariseus não eram pessoas más, eram pessoas equivocadas. Sua relação com Deus era uma relação adoecida, pois não tinha espaço para a Graça Divina. Para eles, a medida da bênção era a medida da capacidade deles de “não pecar” contra Deus. Assim, observavam com estreiteza à Lei de Moisés e, com tal força e ânimo, que acabavam pervertendo a Lei.

Eles também competiam ente si. Ser santo era o objetivo deles e isso trazia uma ferrenha competição para ver quem era o mais santo. Eles usavam os tais filactérios, franjas na barra das roupas que usavam que simbolizavam suas obras na busca da santidade. Oravam várias vezes ao dia, liam as Escrituras várias vezes ao dia. Freqüentavam o Templo e cumpriam à risca os preceitos legais litúrgicos. Obras. Para eles, isso é ser santo.

Pecadores, para os fariseus, são todos os que não viviam conforme eles viviam. São pessoas que “não estão nem ai” para a Lei, eles as chamavam de “ovelhas perdidas” ou “povo da terra” em contraste com “povo de Deus”. Na linguagem de hoje, são os mundanos, os que vivem no “mundo”.

Como sempre Jesus fazia, para ensiná-los eficazmente, contou-lhes uma parábola, uma história. Disse Jesus que um homem rico, pai de dois filhos, foi um dia questionado pelo filho mais jovem. Este pediu sua herança, os bens que ele tinha direito e saiu pelo mundo gastando tudo o que seu pai granjeara e que era a sua parte na herança. Visitou prostíbulos e prostitutas. Dissipou tudo. Tanto que foi parar num chiqueiro a cuidar de porcos e, de maneira tão precária e humilhante, que não podia nem comer a lavagem dos porcos.

Um dia, “caiu em si” e pensou: tantos empregados meu pai tem em sua casa e nenhum deles é tratado aqui como eu sou. Farei o seguinte: vou voltar para a casa do meu pai, e direi a ele: Pai, pequei contra o céu e contra ti; não peço nada além que me trates como um dos seus empregados.

Jesus contou que o menino fez assim e que seu pai, assim que o avistou, ainda distante, correu ao seu encontro para o abraçar. Ouviu o que o filho disse, conforme arquitetara e sua resposta foi perdão total e completo: mandou trazer novas roupas, sandálias, anel (símbolo da posição de herdeiro) e matou um gado para um grande e festivo churrasco, pois seu filho estava morto e agora, reviveu.

O filho mais velho trabalhava no momento que o filho reencontrou seu pai, por isso, de nada sabia até aquele momento. Voltando do trabalho, ouviu um barulho, som de gente feliz. Perguntou ao empregado: o que se passa lá em casa? Informado que seu pai dava uma festa naquele momento e sabendo que seu irmão tinha voltado e era o motivo da festa, foi ter com seu pai.

O pai o convidou para a celebração pela volta do seu irmão. Ele se recusou a entrar na festa e ainda cobrou o pai: sempre estou aqui perto de você, faço tudo o que você me pede religiosamente, em nada te desobedeço e você nunca, nunca matou um gado para mim e fez festa para mim.

O pai respondeu que tudo o que era dele também era do seu filho mais velho, no entanto, seu filho mais moço, embora pecador, embora pródigo, retornou e ele tinha que celebrar este retorno, pois ele estava morto e reviveu.

Inutilmente convidou seu filho mais velho para entrar na celebração da vida, pois este filho mais velho recusava-se a celebrar a vida de um ser humano que pecou contra seu pai, indo embora de casa, vivendo dissolutamente, gastando tudo com prostituas e prazeres. O filho mais velho, além do ressentimento, estava invejoso, pois nunca seu pai o tratou daquela maneira, por mais que ele fizesse até o presente momento.

E assim acaba a história contada por Jesus, com suspense, sem desfecho, não sabemos se o filho mais velho, numa atitude radical pegou suas coisas e também foi embora ou se foi convencido a entrar para a celebração. Nunca saberemos porque o desfecho da história é o que menos importa, tanto para Jesus como para nós. O que importa é entendermos que nós somos os filhos mais novos desse Pai de Amor, que nos recebe com festa, mesmo depois de gastarmos nossa herança.

Os fariseus entenderam a mensagem de Jesus. Eles, fariseus, eram os filhos mais velhos. Eram os que se faziam tudo certinho, eram os obedientes, eram os que seguiam à risca a Lei do Pai. Por isso, não podem enxergar o Banquete da Graça que Jesus proporciona a mando do Pai. Não podem porque nesta festa só tem filhos mais jovens, pródigos e pecadores. Assim, ficam de fora, não querem contato.

A Parábola conhecida como “do Filho Pródigo”, na verdade é a “Parábola do Pai Amoroso”. O Pai foi o que se adiantou à chegada do filho para abraçá-lo, beijar e restituir-lhe o lugar que era dele. O Pai foi o que deu ordens para que a festa tivesse início. O Pai é aquele que justifica o filho, embora ele não mereça.

Esta é a lógica do Reino de Deus pregado por Jesus. São os doentes e não os sãos que precisam de médico. São pecadores e não os santarrões que precisam da sua Graça e do seu Amor. São os filhos mais novos, os pródigos que tem festa.

Na lógica do Reino de Deus a iniciativa do perdão é Dele. O perdão é Dele. A Graça é Dele. A justificação, única possível, é a Dele.

O Apóstolo Paulo, escrevendo aos Coríntios, em sua segunda carta diz: “Se alguém é cristão, é criatura nova. O que era antigo passou, chegou o novo. E TUDO É OBRA DE DEUS, que nos reconciliou consigo por meio de Cristo e nos confiou o ministério da reconciliação. Isto é, Deus estava, por meio de Cristo, reconciliando o mundo consigo, não lhe apontando os delitos, e nos confiou a mensagem da reconciliação” (2Co 5.17-19, Bíblia do Peregrino).

O ser nova criatura é obra de Deus. Tudo é obra de Deus em nós. Mais: nós somos, agora, os que portam essa mensagem de reconciliação. Somos os mensageiros do que Cristo fez em nosso favor. Esta é a mensagem que temos que proclamar aos fariseus de hoje, inclusive os que ganham dinheiro com a culpa humana. Esta é a mensagem que temos aos pecadores do mundo inteiro, sejam eles quem forem: Deus, estava, em Cristo, nos reconciliando consigo mesmo. A festa já começou. O banquete está servido e todos podem entrar, sem exceções.

Comunidade Betel anuncie ao mundo esta mensagem! Em nome de Jesus! Amém!

Rev. Márcio Retamero