O SENHOR É DEUS GRACIOSO, NÃO O DEUS DA BARGANHA!


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Terceiro Domingo da Quaresma – 07/03/2010

Leituras Bíblicas: Sl 103.1-11/ Ex 3.1-8 a.13-15/ 1Co 10.1-6.10-12/ Lc 13.1-9

Neste Terceiro Domingo da Quaresma, neste tempo forte, tempo de conversão, neste grande retiro anual dos cristãos e cristãs, a Mãe Igreja convoca seus filhos e filhas a conhecer e prosseguir em conhecer ao Senhor nosso Deus. Neste processo de conhecimento de Deus, o ser humano que Dele se aproxima, muda e muda profundamente. É impossível conhecer ao Senhor sem mudança; o primeiro passo em conhecê-Lo já nos modifica e o convite quem faz é Ele; é Ele que ouve os clamores do Seu Povo e se revela, trazendo libertação. Todas as amarras que nos prendem ao velho homem caem por terra quando nos aproximamos de Deus para conhecê-Lo; nasce, então, o Novo Ser Humano.

Iniciamos o culto deste domingo louvando ao Senhor por tudo o que Ele é em nossas vidas. Nós O louvamos e nesta postura de louvor, que deve ser a postura de todo aquele que é nova criatura, que passou pela metanoia, traz à nossa memória o que pode, na verdade a única certeza que pode nos dar esperanças: Deus é Deus Gracioso; é Deus de bondade e de misericórdia: “é Ele quem perdoa todas as tuas iniqüidades” (Sl 103.3), como proclamamos na leitura do Salmo 103. Todo o bem, todo o dom, toda a bênção vem Dele e sem Ele, nada somos!

Ele é Aquele que nos perdoa todos os dias; Aquele que renova sobre nós as suas misericórdias a cada manhã! Ele é quem nos farta de bens – os que passam e os que permanecem – enfim, Ele é! EU SOU!

A Leitura do Antigo Testamento que fizemos nos revela que o Senhor nosso Deus é Deus que abomina escravidão, servidão, opressão, seja qual for a circunstância! Sejam quais forem os opressores e os que escravizam! Deus, o nosso Deus, o Deus revelado em Cristo Jesus, é Deus Libertador. Tudo o que promove amarras, algemas, laços, escravidão e opressão, é abominação para o nosso Deus, por isso, Ele ouve o clamor dos oprimidos, dos excluídos, dos que vivem à margem sob as botas de opressores, e se revela para nos libertar.
O contexto da nossa leitura do Antigo Testamento não é um contexto de vida boa, livre e boa para o Povo de Deus. Eles estavam no Egito, servindo Faraó em trabalhos forçados, eram, portanto, escravos. Gemiam, noite e dia, por libertação da sua condição de escravo. Deus ouve este clamor e se levanta, levantando um ser humano, pois Deus age na História através de seres humanos que são suas mãos e seus pés neste mundo.

Moisés neste momento, ao contrário do seu Povo, o Povo de Israel, estava vivendo tranquilamente após um período de grande tribulação. Ele fugiu do Egito e em sua fuga encontrou ajuda na casa de um ser humano, que naquele contexto, foi também a face, as mãos e os pés de Deus na vida dele. Casou com uma de suas filhas e vivia tranquilamente como pastor de rebanhos; era pai de um filho a quem pôs o nome de Gérson, pois era “peregrino em terra estranha” (a terra de Midiã). Nossa leitura nos mostra que Deus veio ao encontro de Moisés neste contexto de tranquilidade, paz, felicidade e fartura para dar-lhe uma missão: agora, ele não será mais um pai que vive em tranquilidade junto à sua família, pastoreando rebanhos, mas será a face humana de Deus, um libertador, um pastor não mais de ovelhas, mas de gente, de seres humanos, o seu povo Israel.

Deus lhe diz que ouviu o clamor do Seu Povo que geme e chora sob a chibata do opressor: “Conheço-lhe o sofrimento” (Ex 3.7b) e revela: “por isso, desci, a fim de livrá-lo da mão dos egípcios e para fazê-lo subir daquela terra a uma terra boa e ampla, terra que mana leite e mel” (Ex 3.8). Deus aqui revela-Se como um Deus vivo e que está junto com aqueles que a Ele pertencem; Ele ouve as orações dos seus e não suporta vê-los em sofrimento, em opressão, em escravidão. Contudo, Deus precisa de um instrumento, de um ser humano que será o agente da Graça e escolhe Moisés.

“Vem, agora, e eu te enviarei a Faraó, para que tires o meu povo, os filhos de Israel, do Egito” (Ex 3.10). Moisés resiste, pensa que não é ninguém, não se vê como alguém capacitado para tão grande tarefa; teme, na verdade. Deus lhe garante que será com ele, que estará com ele, que não o abandonará na tarefa de libertação. Moisés então pergunta ao Senhor o que ele falaria quando chegasse ao Egito e dissesse que ele era um enviado de Deus para a libertação; o que ele responderia aos que lhes perguntassem: qual é o nome do nosso Deus?

Deus responde: EU SOU O QUE SOU. Este é o nome do Deus Gracioso; este é o nome do Deus que não tolera opressão, Eterno é o Seu Nome! Ele não tem passado, presente ou futuro, pois é Deus no passado, no presente e no futuro e sempre estará com os ouvidos abertos para escutar os clamores de todos os seres humanos que gemem sob a chibata de um senhor, levantando a quem lhe apraz, para operar pela Graça, a libertação de sua gente.

Deus é Deus Libertador e nós, a Sua Igreja, Seu Povo Eleito, somos os agentes de libertação neste mundo de escravidões, de servidões, de opressões. Assim como Moisés foi chamado por Deus, nós,o Seu Povo, também somos chamados para nos colocarmos em posição de luta contra todos os “faraós” da nossa geração. Nós também somos chamados a irmos para os “egitos existenciais”, nesses territórios de sofrimento, dor, gemidos e opressão, e desafiarmos todo e qualquer faraó que insiste em oprimir os filhos e as filhas Dele.

Jamais podemos nos esquecer quem é o Senhor nosso Deus e qual é a nossa missão neste mundo! A religião, desgraçadamente, tornou-se agente de opressão! A religião, como nos mostra com provas irrefutáveis a História também usou e abusou da chibata para oprimir os filhos e as filhas do Senhor. A religião ainda serve de opressora, ainda usa chibata, ainda é um dos mais poderosos faraós que conhecemos! A religião ainda hoje faz escravos os seres humanos que Deus quer libertar!

Nós não somos e não podemos compactuar com os religiosos que usam das Escrituras, do nome de Deus e do nome de Jesus para oprimir seres humanos. Nós não podemos referendar esses lugares que se travestem de igrejas e posam de cristãos para tosquiar as ovelhas do Senhor. Não podemos compactuar com a religião que se apega à letra que mata e esquece do espírito que vivifica; da religião que usa e abusa das Escrituras para fazer perecer seres humanos que Deus quer libertar.

Assim como Moisés, nós, a Igreja, temos um chamado de responsabilidade. Não adianta as nossas desculpas para o nosso não envolvimento. Não adianta a negação. Se somos verdadeiramente Igreja do Deus Vivo, somos agentes de libertação e em nome Dele, trabalharemos para a libertação de todos os oprimidos e para a morte de toda a religião que oprime e faz gemer. Somos aqueles que pela Palavra derrubam os sistemas, qualquer sistema, que mata, faz sofrer e faz gemer. Somos chamados a tomarmos das mãos dos opressores todas as chibatas que esfolam a carne de nossa gente, seja lá qual for o nome de quem segura a maldita chibata, até mesmo se este alguém tem o nome de “igreja”.

A Quaresma, tempo de conversão, também é tempo de convocação: nela, especialmente hoje, Deus, pela Sua Palavra, convoca seu povo a lutar e derrubar os opressores do nosso tempo, os faraós do nosso século. Temos que derrubar, inclusive, os ídolos que levam o nome de “deus”; este ai, que é vendido nas rádios evangélicas e nos programas de televisão cujos atores principais são os engravatados de Bíblia na mão falando em nome de um deus que eles transformaram num ídolo, num faraó.

O deus da religião não é o Deus de Moisés, não é o mesmo que ouviu os clamores do povo no Egito e se revelou nas Escrituras. O deus desses camelôs da fé é Mamon; é um ídolo que quer usurpar o lugar de Deus, do Deus Vivo. É um ídolo cruel, que faz sofrer e faz gemer, ainda que teatralmente seus seguidores estejam sorrindo e trazem um discurso de libertação na boca. Este ídolo vendido a preço de ouro, este deus de promessas falsas é adquirido mediante as ofertas e os dízimos dos seus idólatras. É o deus das bíblias de estudo de prosperidade financeira; é o ídolo das correntes, das campanhas, das sextas-feira fortes; é o deus que dá mais a quem tem mais a pagar!

O povo que anda atrás dessa gente que vende este ídolo sofre e geme, embora não percebam isso neste momento. Eles lotam seus templos maiores, suas tendas da fé porque são escravos em busca de libertação real. Iludidos com os testemunhos comprados com o dinheiro deles, correm atrás da “bênção” mercantil e urgente, no desespero de resolver as amarras e as chibatas de uma vida miserável, sem casa própria, sem dinheiro para alimentar seus filhos, sem uma vida digna. São escravos.

O mesmo povo que Moisés foi enviado a libertar é aquele que não enxergava a libertação. Saíram do Egito vendo a poderosa mão do Senhor operar, mas isso pouco lhes causava espanto quando sentiam saudades da escravidão, das panelas de carne do Egito. Sentiam saudades da escravidão! Por isso, começaram a lidar com Deus como os outros que eles conheceram lá no Egito. Começaram a ter uma relação de barganha com Deus como os idólatras têm com seus ídolos que chamam deuses.

A segunda leitura de hoje, retirada da primeira carta do Apóstolo Paulo aos Coríntios, nos exorta enquanto Igreja a não procedermos como aquele povo que saiu do Egito pela mão forte do Senhor, mas que tombou morto no deserto porque esqueceram do Deus Vivo para servir aos ídolos que cobravam, que barganhavam pela bênção. Eles tinham tudo para entrarem na terra da promessa, na terra que mana leite e mel, mas não entraram porque rejeitaram o Senhor da Graça pelo ídolo da barganha!

O Mar Vermelho milagrosamente aberto para que eles passassem a pé enxuto e que depois se fechou engolindo seus opressores, a nuvem que lhes salvava do sol escaldante do deserto, a coluna de fogo que lhes servia de proteção à noite, o maná que graciosamente caía do céu para lhes matar a fome, as codornas que lhes matava a saudade das panelas de carne, a pedra que brotava água e que lhes seguia – todos esses milagres do Deus Vivo e Verdadeiro, do Senhor da Vida e da libertação, não foram suficientes para eles!

Paulo adverte e exorta a Igreja de Corinto e, por ela, todos nós que hoje somos Igreja: “Ora, estas coisas se tornaram exemplos para nós, a fim de que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram... Estas coisas lhes sobrevieram como exemplos e foram escritas para advertência nossa, de nós outros sobre quem os fins do século têm chegado” (1Co 10.6.11). Paulo está dizendo uma verdade altissonante: os milagres retumbantes podem até nos encher os olhos, mas se eles ficam só nisso, nada produzem, não produzem libertação. A verdadeira libertação, o verdadeiro milagre é aquele que fixa no coração e que se transfoma em verdade em nós, quebrando as nossas algemas.

Vejo hoje em dia, os operadores de milagres do nosso tempo, as “igrejas do poder do deus ídolo”, os apóstolos e suas fajutas unções regadas com bastante suor; vejo esses operadores de miragens que chamam de milagres a demonstrarem pela TV seus supostos milagres retumbantes, suas unçoes do riso, unções do choro, sopros que fazem cair, paletós do poder e o raio que os parta. Vejo gente que enche os olhos com isso. Escravos que correm atrás das videntes, das cartomantes evangélicas, das babalorixás gospels. Vejo um povo sedento comprar a preço de ouro, muitas vezes tirando da boca dos filhos para comprarem “redinhas da unção”. Vejo escravos que cada vez mais se algemam! “O homem pensa que é livre, mas por toda parte está acorrentado”, escreveu Rosseau. Desgraçadamente, confirmadas estão, nos dias de hoje, as palavras do filósofo!

Milagres verdadeiros como aqueles que Deus operou quando tirou seu povo do Egito não foram suficientes para libertar verdadeiramente aquele povo. Tampouco os milagres fajutos de hoje o são! O que, então, pode verdadeiramente nos libertar?

O Evangelho de hoje nos responde.

O povo do tempo de Jesus assim como o povo do tempo de hoje achava que a relação com Deus era uma relação de barhanga. Eles acreditavam que acreditavam em Deus, mas o deus deles era um ídolo. Não era Deus da Graça, era deus da barganha. Eles professavam uma teologia doente, como a de hoje, a chamada “teologia da causa e efeito”, também conhecida como a “teologia dos amigos de Jó”; lembra deles?

Os amigos de Jó diziam a ele: você está passando por tudo isso, por todo esse sofrimento, porque algo você fez contra Deus. Você sofre hoje essas terríveis coisas porque pecou, e este pecado, ainda que oculto, está trazendo toda essa devastação sobre sua vida. “Deus está pesando a mão contra você!”

Essa também era, no tempo de Jesus e no nosso, a teologia oficial, amplamente crida e professada. Jesus usa de duas tragédias para ensinar aos seus ouvintes que esta teologia é uma teologia pervertida, uma teologia da barganha, uma teologia que faz de Deus um ídolo, que trata os seus segundo a qualidade ou quantidade daquilo que eles lhes oferecem.

A primeira parte do nosso texto (versículos 1 a 5), nos informa dos exemplos de Jesus e da conclusão que ele tira desses exemplos. Ele lembra daqueles galileus que Pilatos matou enquanto oravam e entregavam seus sacrifícios, seu culto a Deus. Também lembra dos que morreram soterrados na queda da Torre de Siloé e lhes pergunta sobre ambos os eventos: “pensais que esses que foram vítimas eram mais pecadores que vocês e que Deus não estava com eles e por isso eles pereceram? Pensam que sois melhores do que eles? Não, vocês não são e se vocês não se arrependerem, igualmente, perecereis!”

A palavra aqui traduzida como “arrepender” é, na verdade, metanoia. Não significa este arrependimento que nós, pegajosamente piegas gostamos de propalar. Este arrependimento não é remorso, que é infrutífero. O arrependimento, a metanoia que Jesus aqui fala, é uma postura diante da vida que exige de nós uma mudança radical nas nossas atitudes, uma transformação da nossa mente e, consequentemente, dos nossos atos, uma “meia volta” capaz de mudar radicalmente a nossa vida, o nosos pensar e o nosso agir. A metanoia que é a verdadeira e única conversão. Mais que um levantar de mãos em resposta aos apelos de um pastor no final de um sermão, a conversão é novo nascimento.

Se não nos arrependermos de fato, se não nascermos de novo, tal qual aqueles, pereceremos eternamente escravos e seremos tombados nos desertos da vida. Se não produzirmos a metanoia que na verdade é a ação do Espírito Santo em nós, vem de Deus, não entraremos na terra que mana leite e mel, na terra da promessa. Se não tomarmos a postura na vida de pessoas que de novo nasceram, sucumbiremos nas mãos desses camelôs da fé, desses porta vozes de ídolos e jamais conheceremos a verdadeira libertação. Jamais seremos livres, de fato.

O que pode nos libertar? A cosnciência de que o Senhor nosso Deus é Aquele, que como oramos com o Salmo 103, “não nos trata segundo os nossos pecados, nem nos retribui consoante as nossas iniquidades. Pois quanto o céu se alteia acima da terra, assim grande é a sua misericórdia para com os que o temem” (vers. 10-11).

Somente os que creem num Deus que age dessa maneira, amorosamente, misericordiosamente, gratuitamente, é que seremos verdadeiramente livres. Somente crendo num Deus que não é o deus da barganha, mas o Deus da Graça é que seremos pessoas livres e agentes de libertação. Somente professando essa fé e nela vivendo e por ela militando que conseguiremos produzir libertação neste mundo de opressão e de escravidão!

No Evangelho, Jesus compara seres humanos, portanto também a Igreja que é formada por seres humanos, à figueira. Existem figueiras estéreis, que não produzem frutos. Existem figueiras como aquela que Ele encontrou indo para Jerusalém, cujas folhas são enganosamente verdinhas, mas que, procurando nelas frutos, não encontramos; são as figueiras de aparência. Por fim, existem as figueiras frutíferas e são essas as que servem para os objetivos do Reino de Deus.

As que não frutificam ou as figueiras que só tem a parência de frutíferas para nada servem, se não ocupar espaço útil, portanto, devem ser cortadas, devem não existir, devem queimar. Somente as figueiras frutíferas são as que podem ocupar o terreno, pois elas cumprem o propósito para qual foram criadas, dão frutos.

A pergunta que o Espírito Santo, pela Palavra, faz a todos nós é: que tipo de figueira/ser humano você quer ser? Que tipo de figueira/igreja, queremos ser? As que não dão fruto e não podem libertar e serem libertas? As que só aparentam que tem fruto e também não podem libertar, nem serem libertas? Ou queremos ser seres humanos e Igreja conforme a figueira que frutifica, que cumpre o propósito para a qual foram criadas que é a honra e a glória de Deus, em primeiro lugar, e a verdadeira libertação que faz morrer toda escravidão, inclusive a da religião?

Povo de Deus, escolha ser a figueira frutífera! Igreja! Escolha ser a figeuria que frutifica! Homem e mulher de Deus, escolha ser a figueira que dá frutos que transformem toda algema, toda cadeia, toda a amarra em liberdade! Sejam assim, para a honra e glória do Senhor e para a edificação da Sua Igreja e revolução pelo amor, deste mundo de escravidão! Amém!

Reverendo Márcio Retamero