O Pai Nosso - Parte 3


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“O Pão nosso de cada dia dá-nos hoje” Mt 6.11

O Senhor Jesus nos ensina a orar pelo pão, pelo alimento sem o qual não é possível a vida dos seres humanos. Necessitamos de pão, sem ele, perecemos! E este pão que tanto necessitamos é o pão material, o alimento para nos nutrir o corpo. Todavia, é também o pão espiritual, sem o qual, matamos nossa alma de inanição. Assim como nosso corpo necessita de alimento, nossa alma também. O pão nosso de cada dia que o Senhor Jesus nos ensina a pedir, não é somente o pão material, igualmente, o pão espiritual.

Entendemos, segundo a oração que o Senhor nos ensinou, que é legítimo pedir a Deus coisas materiais. Delas temos necessidades, sem elas, nossa vida pode se complicar de tal modo, que podemos perecer. Contudo, percebam que Jesus nos ensina a pedir “de cada dia”, hoje, ou seja: em primeiro lugar reconhecer que a ambição desmedida não é e nem pode ser a vontade de Deus para as nossas vidas, precisamos nos desviar de qualquer espírito de ganância e egoísmo e de qualquer sentimento que visa o entesourar para aqui e para o agora (onde as traças corroem); segundo, devemos confiar na providência e no amor de Deus, o Pai, pois Ele assim como nos deu o pão de cada dia no ontem, nos dará no hoje e no amanhã: confiança no amor; terceiro, o pão que necessitamos, seja ele material ou espiritual, necessitamos para HOJE, para o nosso agora, pois “a cada dia basta o seu mau” e nossa urgência é para hoje; nosso Deus é o Deus do Agora: “HOJE é o dia da salvação”, declarou Paulo.

Digo sempre que o Evangelho do Senhor Jesus não se interessa pelo além, entendendo este além como algo para além da vida, apenas no plano metafísico da existência! O Senhor anunciou que o Reino começa em nós, a partir da nossa existência, desde o local onde estamos! Isso significa que o céu ou o “inferno” tem início não lá, no porvir, mas aqui e agora! Vivemos céu se seguirmos os passos do Senhor e sua Lei; vivemos no inferno se nos recusarmos viver segundo o que Ele pede de nós.

Para o nosso bem e para a nossa edificação, alegria e gozo, Deus em Cristo nos ensina a viver melhor; a viver com qualidade de vida a partir de aqui e no nosso agora e isto é céu! Para que não haja em nós ansiedades que nos tiram a paz; para que não haja em nós a infelicidade de largarmos de lado nosso agora para vivermos num amanhã que não nos é permitido controlar; para que haja fé verdadeira, entrega verdadeira, paz completa; nos ensina Jesus: “o pão nosso de cada dia, dá-nos hoje”. Quem crê e quem passou pela experiência do ontem, que não faltou, crê igualmente que basta o de hoje, porque o amanhã será como o ontem, ou seja, tampouco faltará! É este tipo de fé, fé amadurecida, não infantil, que o Evangelho genuíno da Graça de Cristo suscita em nós!

O pão é também o pão espiritual. Que desgraça é viver uma vida em função somente do pão material! Que desgraça é gastar o período de 24 horas que Deus nos dá dia-a-dia correndo atrás de vento e de vaidade! Que desgraça é uma vida que não compreende que, para além do corpo que um dia perecerá numa sepultura ou num forno crematório, necessitamos talvez com mais urgência do Pão da Vida, do pão espiritual, do Pão dos Anjos: a presença transformadora da Graça de Jesus de Nazaré em nossas vidas!

Triste vida é a vivida sem a compreensão de que não basta pão que mata a fome do corpo, mas igualmente, a necessidade de um pão que mata uma fome tão tenaz e destruidora quanto a fome física! A Graça rega o nosso coração, que deve ser jardim, não deserto; pomar, não ermida; plantação vicejante, não plantação mirrada! Só conseguimos alimentar devidamente o nosso coração, a nossa alma, com o Pão dos Anjos! Nenhum outro pão é capaz de matar esta fome! Nenhum!

Tenho visto homens e mulheres morrerem de inanição n’alma! Tenho visto pessoas, criadas à imagem e semelhança de Deus, coroa da criação, deixarem suas vidas acabarem numa vida vivida apenas para o material, não se dando conta que a vida vai além disso! Tenho visto gente se acabar na agonia da vida, tentando matar a fome existencial que tem em pratos outros que não servem para matar este tipo de fome.

Estive em São Paulo nos últimos dez dias e andando pelas ruas da maior cidade do Brasil, pude ver a angústia nos olhos de gente que está se matando a cada dia nas drogas, no álcool, no sexo desvairado e irresponsável. Pude ver seres humanos, obra última do Criador que declarou ser “muito bom” tudo o que criou, tentando, desvairadamente, matar a fome existencial no que não pode satisfazer a alma. Agostinho escreveu em suas “Confissões”: “Fizeste-nos, Senhor, para Vós; e nosso coração não tem descanso, enquanto não repousar em Vós!”

Oremos, todos os dias, pelo pão nosso de cada dia: ele não nos faltará, pois fiel é Aquele que prometeu nos saciar toda fome, todos os dias.

Rev. Márcio Retamero