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A Mesa do Senhor: pão, vinho e partilha de vida
Leituras Bíblicas: Pv 9.1-6/ Ef 5.15-20/ Jo 6.51-58
Comentários aos textos bíblicos do 11º Domingo após Pentecostes, 16/08/2009.
Este é o quarto domingo que a Igreja nos convida à reflexão através do Evangelho de Jesus Cristo segundo João, no capítulo 6. Desde o último domingo de julho, quando meditamos sobre o sinal da multiplicação dos pães e dos peixes, paramos neste longo e crucial capítulo de João, também importantes para os outros Evangelhos, conhecidos como sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas). O trecho que lemos hoje (versículos 51 a 58) é também conhecido como “o discurso eucarístico” de Jesus. É clara a alusão à Eucaristia, a santa ceia do Senhor, que através deste texto, a comunidade de João registra no seu Evangelho. O assunto, o tema principal desta perícope é importante para todos nós, porque como eles, a comunidade de João, igreja local antes de nós, a eucaristia também é o centro de nossa vida como Igreja. Em torno da mesa do Senhor, onde são postos os sinais visíveis, pão e vinho, nós também partilhamos nossas vidas ou deveríamos partilhar!
O Evangelho de João se omite na narração da última ceia de Jesus. Não encontramos neste livro as palavras institucionais da santa ceia (isto é o meu corpo/ isto é o meu sangue), contudo, este livro completa esta lacuna, que não é sem propósito, posto que os evangelhos são construções da comunidade, com este discurso de Cristo, feito em Cafarnaum, após a multiplicação dos pães e dos peixes.
Desde o século XVI, quando aconteceu a primeira reforma na Igreja do Ocidente, muitas são as controvérsias entre católicos e protestantes quando o assunto é a santa ceia. Sabemos que os católicos acreditam na consubstanciação e na transubstanciação dos elementos visíveis da ceia, o pão e o vinho. Para eles, o pão torna-se carne de Cristo e o vinho, sangue de Cristo. Para eles, Jesus está presente fisicamente no pão e no vinho, tornando-se corpo e sangue sob as palavras da instituição proferidas pelo sacerdote no ato da celebração. Para eles, “isto é o meu corpo/ isto é o meu sangue” é literal, por isso, a missa, o culto romano, é também chamado de “sacrifício incruento”, ou seja, sacrifício sem derramamento de sangue. Para um católico, todas as vezes que uma missa é celebrada, é renovado o sacrifício do Calvário, como se Cristo, outra vez, morresse por nós.
Nós, protestantes, não cremos assim. Contudo, nem todos os protestantes concordam na teologia da santa ceia. O fosso que se abriu entre católicos e protestantes, também se abriu entre protestantes. Dentro deste grupo, desde o tempo da reforma, temos dois grupos bem distintos: os sacramentistas e os memorialistas. Os últimos são mais influentes em nosso meio até o dia de hoje. São os que não têm na santa ceia, nem no batismo, um sacramento. Acreditam que a santa ceia é tão somente um memorial, uma cena que o ato de Jesus é relembrado. Pão e vinho não se transformam em nada, continuam sendo pão e vinho. Contudo, existe uma contradição entre os que têm tal visão, pois no dia de santa ceia, eles se “preparam” melhor para o culto, “consagram-se” neste dia através de jejum e oração e o culto em si tem um clima completamente diferente, mais solene. O que eu me pergunto é porque tanta preparação, tanta solenidade, jejum e oração, se a visão é tão somente memorialista? Se não passa de uma cena, ainda que cena santa, por que tanta espiritualidade envolvida?
Os protestantes reformados ou calvinistas, como nós em Betel, não cremos nem como os católicos, tampouco como os memorialistas. Somos sacramentistas. Para nós, pão e vinho, antes e depois das palavras da consagração, continuam pão e vinho. Contudo, tais sinais são plenos de significado espiritual. Para aquele que crê, pão ainda que pão e vinho, ainda que vinho, são veículos materiais, sinais, para nos comunicar uma realidade espiritual: Jesus está presente espiritualmente neste pão e neste vinho. Por isso a santa ceia é considerada entre nós um sacramento. Através dele, recebemos bens espirituais como o fortalecimento de nossa fé, a nutrição da nossa alma, a confirmação do nosso chamado, o emprenho na perseverança, a lembrança da santidade dos cristãos, enfim, as bênçãos que Jesus nos garante. A santa ceia não é memorial, teatro, tampouco renovação do sacrifício único e irrepitível da cruz no Calvário.
A Segunda Confissão Helvética, um dos documentos reformados que adotamos em nossa comunidade para a nossa instrução doutrinária, nos ensina: “A Ceia do Senhor (também chamada mesa do Senhor e Eucaristia, ou seja, ação de graças) é em geral chamada ceia porque foi instituída por Cristo em sua última ceia, e ainda representa, e porque nela os fiéis são espiritualmente alimentados e nutridos. O autor da Ceia do Senhor não é nenhum anjo ou homem, mas o próprio Filho de Deus, nosso Senhor Jesus Cristo, que primeiro a consagrou para a sua igreja. Essa consagração ou bênção ainda permanece entre todos quantos celebram não outra ceia, mas aquela mesma, que o Senhor instituiu e na qual recitam as palavras da Ceia do Senhor, e em tudo voltam o olhar com verdadeira fé para o único Cristo, e recebem, como de suas mãos, aquilo que recebem pelo ministério dos ministros da Igreja”.
Continua: “Por este rito sagrado, o Senhor deseja manter em viva lembrança a maior bênção que concedeu aos mortais, a saber, que pelo dom do seu corpo e pelo derramamento do seu sangue ele perdoou todos os nossos pecados e nos redimiu da morte eterna e do poder do diabo, e agora nos alimenta com a sua carne e nos dá a beber do seu sangue, os quais, recebidos espiritualmente com verdadeira fé, nos alimentam para a vida eterna. E essa bênção se renova tantas vezes quantas é celebrada a ceia do Senhor. Eis o que disse nosso Senhor: “Fazei isso em memória de mim (Lc 22.19).”
É preciso que prestemos muita atenção o que nossa doutrina ensina, principalmente nos dias atuais, pois são muitas as vozes que se levantam, cada uma com uma opinião diferente acerca de questões sérias como as questões de fé. Nós não podemos nos aventurar em questões importantíssimas como essas! Uma doutrina errada nos leva a uma fé errada e a uma prática equivocada de cristianismo. Não, não podemos negligenciar nisso! Se tais coisas não fossem importantes para cristãos, o Senhor Jesus não teria deixado este legado, tampouco Sua Igreja teria registrado nos Evangelhos e o Apóstolo Paulo não teria dedicado passagens inteiras de suas epístolas às igrejas sobre a santa ceia, como na primeira carta aos Coríntios.
As palavras que hoje ecoam no nosso coração, lidas no Evangelho de João, capítulo 6, são palavras de Jesus que a comunidade joanina registrou para a nossa instrução e edificação na fé: “Quem comer a minha carne e beber o meu sangue permanece em mim, e eu, nele. Assim como o Pai, que vive, me enviou, e igualmente, eu vivo pelo Pai, também quem de mim se alimenta por mim viverá. Este é o pão que desceu do céu, em nada semelhante àquele que os vossos pais comeram e, contudo, morreram; quem comer este pão viverá eternamente” (Jo 6.56-58). Grande é a promessa de Jesus! Quem duvidará das palavras de vida eterna ditas pelo Salvador?!
Meus irmãos vede quão grande é a misericórdia e o amor de Deus por nós! Ele se deu na Cruz por nós; Ele se dá na santa ceia por nós! Somos alimentados por Ele mesmo, somos nutridos espiritualmente por Ele e tomamos posse da promessa: viveremos eternamente!
A participação no sacramento da santa ceia nos chama ao compromisso também. Isto nos é esclarecido pela segunda leitura que hoje fizemos na carta de Paulo aos Efésios. A participação nesta mesa do Senhor nos chama ao compromisso com os nossos semelhantes, não apenas os semelhantes de dentro das quatro paredes de nossa comunidade, mas muito mais, com os nossos semelhantes de fora dessas quatro paredes.
A mesa do Senhor é local de igualdade, de fraternidade, de comum-união e de amor incondicional. Impossível não observar esses valores cristãos, que não são apenas éticos, mas caminho seguro de vida e de vida abundante. Uma velha canção diz: “comungar é tornar-se um perigo!” Por quê? Porque aquele que toma parte nesta mesa igualitária, nesta mesa onde há justiça e fraternidade, nesta mesa onde há comum-união, é chamado para levar tais valores para o seu dia a dia. Tais valores não são os valores do mundo, sendo assim, quem comunga torna-se um perigo ao mundo, porque o desafia, o interpela e nele age não a partir da lógica do mundo, mas a partir da lógica do Reino de Deus.
Comungar é tornar-se um perigo porque desafiamos este mundo mal e caído pela nossa ação transformadora nele. Conforme nos exorta Paulo, através da carta aos Efésios, não agimos no mundo como os néscios, mas como sábios. Não levamos a vida na flauta, perdendo tempo, mas remimos o tempo, damos real valor a cada minuto, pois bastam segundos para que uma vida seja ceifada, um ser humano seja assassinado, roubado, destituído de sua dignidade. Porque comungamos não agimos na insensatez, antes, buscamos discernimento, para que tenhamos firmeza em nossas ações transformadoras, necessitamos saber o que o Senhor requer de nós todos os dias.
Porque participamos desta mesa santa, bendita, que nos comunica vida e nos enche a mão de sementes de vida para semearmos neste mundo, não nos embriagamos com vinho, que nos entorpece, que nos anestesia ante a dor do mundo, ante o sofrimento do semelhante. Não, nós não queremos fuga e nenhuma droga que entorpece, ainda que esta droga venha travestida de religião “cristã”! Antes, nos enchemos do “ruah”, do “pneuma”, do vento do Senhor que nos empurra, nos impele, nos força a ir ao encontro dos que sofrem sob a opressão deste mundo que prioriza a morte não a vida.
Por isso, porque somos chamados para esta ceia de partilha, quando nos reunimos em torno dela semanalmente, o fazemos com alegria, não tristeza, cantamos, oramos, louvamos o Senhor que semanalmente nos alimenta para termos mais força, mais coragem, mais vigor neste mister de revolucionar o mundo.
Comungar, tomar parte nesta mesa é tornar-se um perigo porque quando assim fazemos lançamos fora a auto-suficiência, o egoísmo, o pragmatismo, o não-compromisso com o outro que conosco caminha, antes, sujeitamo-nos uns aos outros em amor e no temor de Cristo, pois sabemos que não somos uma ilha. Necessitamos do auxílio do outro, da mão alheia, da amizade, da fraternidade. Sujeitamo-nos uns aos outros porque em torno da mesa não há maior, nem menor e se há alguém entre nós que deseja ser o maior, este é o primeiro que pega água, bacia e toalha, como fez o Senhor, para lavar os pés do irmão. Igualdade. Valor que o Evangelho nos comunica, a mesa do Senhor nos ensina e que o mundo rejeita, pois o mundo é lugar de competição. Corrida louca e insana atrás do vento.
Que o Espírito Santo nos ensine hoje e sempre as verdades espirituais que a santa ceia ou eucaristia do Senhor nos transmite. Que este pão e este vinho, pão e cálice do Senhor, corpo e sangue de Jesus, sejam sustentos e remédios para as nossas vidas; seja fortalecimento para a nossa missão; coragem para os sem coragem; cura para os adoecidos da alma e do corpo; sustância para os desfalecidos; alegria para os entristecidos; força e alento para os sem força e sem alento; e compromisso de uns para com os outros; os outros de perto e os outros de longe, até aquele dia em que comemoremos e beberemos face a face com Aquele que nos remiu! Seja assim, para a honra e glória do Senhor e para a edificação de Sua Igreja e transformação do nosso mundo! Amém!
Rev. Márcio Retamero

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