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VOCÊ TEM FOME DE QUE?
Leituras Bíblicas: Ex 16.2-4.12-15/ Efésios 4.17.20-24/
João 6.24-35
Comentário dos textos bíblicos do 9º Domingo após Pentecostes, 02/08/2009.
Esta é a pergunta que a Igreja nos faz hoje através das Escrituras: qual é a sua fome? Você tem fome de que? A natureza humana tem muitas fomes: fome de pão, fome de vida, fome de amor, fome de cultura, fome de afeto, fome de justiça, fome de verdade, forme de auto-realização, fome de vida familiar... Muitas são as nossas fomes!
A primeira leitura de hoje nos mostra o povo de Israel logo após a libertação do Egito. Estavam eles peregrinando pelo deserto quando começaram a murmurar contra seus líderes Moisés e Arão: estavam com fome. Na verdade, eles culpavam Javé, o Deus Libertador, pela fome que sentiam. Disseram que Ele os levou até o deserto para ali os matar de fome. Até saudades da escravidão, sentiram! Lembravam que no tempo em que eram escravos não faltava pão e carne, então, melhor seria ser escravo e ter o que comer a ser livre sem ter com que se alimentar. Somos capazes de vender nossa liberdade por um pedaço de pão e um bocado de carne! Não é assim ainda hoje?! Desde que nossas necessidades básicas estejam 100% satisfeitas, não nos importa liberdade! O que fazer com a liberdade quando esta não nos dá o que precisamos?! “Sejamos escravos!” pensam muitos!
Contudo, sabemos, e os textos do domingo passado nos provaram que Deus é Deus Libertador. Que Deus se interessa sim em nos saciar a fome. Ele não está de braços cruzados, alheio ao que sentimos, todavia, requer de nós uma decisão e que somente através desta decisão, saciaremos nossa fome.
Israel, o povo da Aliança, saiu do Egito onde era escravo rumo à Terra Prometida que Deus preparou para eles. Entre a escravidão e a liberdade, encontrava-se um deserto – que não é apenas geografia do “lado de fora” do povo, antes, “geografia do lado de dentro” do povo, deserto existencial antes que deserto concreto. Neste deserto existencial, lugar onde nada do que é plantado vigora, Deus mais uma vez nos mostra sua generosidade, seu amor, seu interesse por nós, quando, gratuitamente, nos alimenta e nos sacia a fome.
Diante da saudade do povo da escravidão; diante da ilusão do povo que pensava que lá, na terra da escravidão, tinham pão e carne à vontade, Deus se mobiliza em misericórdia e Graça para alimentar Seu Povo. Envia carne e pão com fartura para que eles saciem sua fome de pão e carne; contudo, exige decisão: não pegarão mais do que o necessário para saciar a fome de cada dia. Tal decisão requer fé: certeza de que amanhã, o mesmo Deus que nos saciou hoje a fome, nos saciará igualmente. Tal decisão requer fé no Deus que verdadeiramente é Libertador e Provedor. Também tal decisão requer uma atitude para além da fé, uma atitude que é difícil de tomar tratando-se de seres humanos: o não acúmulo de bens materiais. Não necessitamos senão do pão de hoje. Não é assim que pedimos na oração que o Senhor nos ensinou: “o pão nosso de cada dia, dá-nos hoje”?! Necessitamos de mais? Ou é o nosso egoísmo e desejo de possuir que nos faz almejarmos além do que realmente necessitamos?
Neste episódio do deserto, o Senhor ensina ao Seu Povo, portanto, ensina a nós que não estamos num deserto físico, geográfico, mas passamos por muitos desertos existenciais em nossa peregrinação rumo à liberdade, que Ele e somente Ele é capaz de nos prover, de nos saciar a fome, de nos fartar. Contudo, exige de nós fé Nele que nos alimentará para hoje tão somente, isso exige de nós não somente a fé de que amanhã Ele fará novamente, nos saciará novamente, mas, também, requer de nós o empenho em não desejarmos além do que Ele está disposto a nos ofertar: é pra hoje somente.
A pergunta que não se cala diante de tal interpelação que o Senhor nos faz hoje pela Sua Palavra é: abandonaremos-nos nas mãos do Deus que tem nos saciado a fome, dando-nos liberdade para peregrinarmos pelos desertos da vida rumo à liberdade ou permaneceremos nesta luta insana por um pedaço de pão e um bocado de carne, confiando apenas em nossas forças para isso, acumulando para o dia depois de amanhã os bens, tendo neles e tão somente o apoio para o amanhã? Afinal, o que sabemos do amanhã, não é mesmo?!
Quem se decidir por continuar sozinho nesta luta pela sobrevivência – sim, sobrevivência, não vida abundante – precisa ter consigo plena certeza de que está por sua conta e que se hoje te faltar forças para a luta do teu pão, amanhã então, é dia de fome.
Agora, quem se decidir por se abandonar nas mãos Daquele que saciou Israel e também nos tem saciado até aqui, escolherá bem, pois o faz mediante a fé que gera esperança e a esperança não nos engana, antes, nos faz viver abundantemente, descansados Naquele que é Provedor e que deu provas do Seu amor para conosco. Quem viver crendo Nele, ainda que passe pelo deserto será farto de pão e carne, não passará fome, pois sabe que em qualquer circunstância, Ele conosco está e nos alimenta.
São para esses que escreve Paulo em sua carta aos Efésios: “Eis, pois o que digo e atesto no Senhor: não continueis a viver como vivem os pagãos, cuja inteligência os leva ao nada” (Ef 4.17). Porque nos exorta deste modo o Apóstolo? Porque nos conclama a não vivermos como os pagãos? Porque os pagãos são aqueles que precisam da barganha para ter satisfeitos suas fomes. Os pagãos necessitam de oferecer “coisas” aos ídolos para deles receberem favor. Nada é de graça nesta relação! Não, é uma relação de troca, um toma lá, dá cá que não pára! Que fé há neste tipo de vivência? Nenhuma! Neste tipo de vivência só existe uma relação de troca, um escambo espiritual que se não for sustentado, nos deixa na mão! Os pagãos vivem preocupados em ter hoje o que pode agradar os seus ídolos, porque se lhes falta o que pode agradar os seus ídolos, ficam à mercê, ficam com fome.
Deus não quer que sejamos como os pagãos. Deus não quer que vivamos num escambo com Ele. Aquele que requer atitude de fé nos dá a fé, pois fé é dom gratuito! Ele nos provê a fé e o alimento. Em todo este processo é Dele a iniciativa: foi Ele quem nos libertou apesar de nós; é Ele que nos sacia a fome apesar de nós; é Ele que agindo assim nos leva à fé apesar da nossa incredulidade!
Deus quer que sejamos “homens novos”, que mudemos nossa mentalidade pagã, que nos renovemos a mente para entendermos que somente o “homem novo”, aquele que não vive como os pagãos, mas aqueles que vivem como cristãos, podem ter fé no Salvador que é suficiente para todos nós. O desejo de Deus é que essa transformação se realize completamente até que estejamos à estatura do varão perfeito, Jesus, que não acumulou bens, não andou preocupado somente com sua fome material, mas que acreditou até o fim no Único capaz de nos saciar e de nos prover em todas as coisas. Aquele que nos alcança com bênçãos celestiais todos os dias.
Somente o homem novo pode viver assim. Somente mudando nossa mentalidade pagã poderemos acreditar neste Deus Libertador que nos livra da escravidão do escambo e nos sacia toda e qualquer fome!
Este homem novo nasce do encontro com Cristo. Jesus disse a Nicodemos: necessário vos é nascer de novo. Nicodemos, então naquele momento um homem com mentalidade pagã, ainda que parte do povo de Israel, não entendeu. Então o Senhor lhe explicou: é necessário nascer de novo não da carne, nem do sangue (ou seja, um nascimento carnal, humano), antes, é preciso nascer da água e do Espírito (ou seja, um nascimento que passa longe do humano; um nascimento espiritual). Homem algum pode nascer de novo, carnalmente falando. Contudo, todos os seres humanos podem nascer de novo espiritualmente falando, mudar a mente, renovar o interior, contudo, este novo nascimento só ocorre quando ocorre o encontro real com Jesus, que nos renova e nos faz nascer novamente.
Os homens e mulheres que foram saciados pelo pão da multiplicação dos pães, entenderam que Jesus era o Messias, o Salvador, por conta dos sinais materiais do pão que lhes saciou a fome física tão somente. Por isso, por conta do material, não do espiritual, correram atrás de Jesus em Cafarnaum (Jo 6.24). Não estavam ali pelo pão que lhes sacia a fome espiritual, não desejam o novo nascimento, não buscavam o novo nascimento, o ser uma nova criatura. A mentalidade era pagã. O pragmatismo do paganismo os levou correr atrás de Jesus.
Quando dirigem a Jesus a pergunta: “Rabi, quando é que chegaste aqui?” (vers. 25), não tem de Jesus a resposta que pediam antes a verdade que corriam: “Em verdade, em verdade vos digo, não é porque vistes sinais que me procurais, mas porque comestes pão à saciedade. É necessário que vos empenheis, não para obter esse alimento perecível, mas o alimento que permanece para a vida eterna, o qual o Filho do Homem vos dará, pois foi a Ele que o Pai, que é Deus mesmo, marcou com seu selo” (vers. 26-27). O homem novo não corre atrás do pão que sacia o corpo tão somente, porque ele sabe que até quando dorme Deus lhe sacia a fome. Assim age o velho homem, o da mentalidade pagã, pois sabe que se não oferta o que agrada o ídolo, ficará com fome amanhã. O homem novo se empenha em buscar o pão da vida, que nos sacia a fome eternamente e nos faz viver em abundância.
Jesus diz aos que correram atrás dele pelo pão que só mata a fome física: “a obra de Deus é que creiais naquele que Ele enviou” (vers. 29). Mas eles, fechados no egoísmo e no desejo raso de querer mais pão físico, replicam e pedem de Jesus provas, lembram que no deserto (primeira leitura), Deus deu pão, que saciou a fome física, esquecem que este pão era cotidiano, ou seja, Deus ao dar o pão que saciava somente a fome física, exigiu deles a fé Nele, que amanhã daria novamente pão.
Jesus os corrige no entendimento falso: foi Deus, não Moisés, não Aarão que os alimentou. Foi Deus, Seu Pai, que com Graça os alimentou. E o pão de Deus, disse Jesus, é aquele que desceu do céu, o único capaz de saciar a fome real, que não é só física, mas espiritual também, por isso, dá vida, vida verdadeira, não sobrevivência, ao mundo (vers. 33).
“Senhor, dá-nos sempre deste pão!”, disseram eles (vers. 34). Uma leitura descontextualizada deste texto nos levaria a crer que tais pessoas entenderam e aderiram a Jesus. Ledo engano! Como não somos os que fazem leituras descontextualizadas das Escrituras, precisamos presta atenção no fecho deste episódio. No versículo 60 deste capítulo, encontramos: “Depois de o terem ouvido, muitos dos seus discípulos começaram a dizer: Essa palavra é dura! Quem pode escutá-Lo?” mais além somos informados: “A partir desse momento, muitos dos seus discípulos se retiraram e deixaram de andar com Ele” (vers. 66). Ou seja, tais pessoas não aceitaram o que Jesus ensinou, repeliram o ensinamento, inclusive, seus discípulos e muitos deixaram de segui-lo.
Isso aconteceu porque seres humanos, quando acomodados em seus esquemas de sobrevivência, que exigem deles uma falsa sensação de que no fundo, no fundo são os únicos responsáveis por suas próprias vidas, portanto, são auto-suficientes, não gostam de saber que a vida verdadeira e abundante, se lhes escorre pelos dedos, pois são incapazes – bem como seus ídolos – de proverem essa vida verdadeira.
Seres humanos velhos não querem, não desejam renovar as mentalidades; preferem fincar o pé numa relação de escambo com o ídolo ao invés de se libertarem. Libertação exige entrega, fé, auto-abandono: são auto-suficientes demais para tais atitudes. Liberdade requer a formação de um “novo ser humano”, comprometido com Deus.
A Palavra de Jesus permanece: “Eu sou o Pão da Vida; aquele que vem a mim não terá fome; aquele que crê em mim jamais terá sede” (vers. 35). O homem velho precisa reconhecer que para ter acesso a este pão que dá a vida e a esta água viva que mata a sede – Jesus – precisa ser uma nova criatura: uma criatura que se coloca nas mãos do Senhor, Deus Libertador, que Nele confia e espera certo de que este é o único pão que realmente necessitamos. Quem Dele comer e beber, jamais terá fome e sede; vida abundante é o que está reservado para todo aquele que Nele crer.
Você tem fome de que? Seja qual for a sua fome, ela somente será saciada no Pão da Vida, Jesus Cristo. Venha e coma Dele! Amém!
Rev. Márcio Retamero

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