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Generosidade: o segredo da multiplicação dos pães
Leituras Bíblicas: 2Rs 4.42-44/ Ef 4.1-6/ Jo 6.1-15
Comentário dos textos bíblicos do 8º Domingo após Pentecostes, 26/07/2009.
Muitas vezes pensamos, ao olhar ao redor para a realidade do mundo de hoje – fome, guerras, sistemas políticos opressores, homens que assolam comunidades inteiras, falta de paz, negação de direitos, religião opressora – que Deus está tão longe de cada um de nós que não se importa com nossa vida!
As leituras das Escrituras que somos convidados a fazer neste domingo e nelas meditar, nos garantem que Deus não está alheio ao sofrimento e às necessidades dos seres humanos. Ao contrário! Deus está preocupado em saciar as fomes dos seres humanos! Sim, “fomes”, pois são muitas e diversas os tipos de fome que temos: fome de paz, de pão, de fraternidade e amizade, de amor, de bem estar... As Escrituras nos mostram como Deus age para nos saciar as fomes de cada um de nós.
A leitura do Segundo Livro dos Reis nos mostra que um homem foi até ao profeta de Deus, Eliseu, para lhe entregar uma oferta generosa: o pão das primícias. A Lei mandava que assim procedesse, contudo, a lei ordenava que tais pães fossem apresentados ao sacerdote que ministrava no Templo. Após serem apresentados diante de Deus, os pães das primícias passavam a pertencer ao sacerdote, que vivia com sua família - como toda a tribo de Levi à qual pertenciam - da generosidade concretizada em ofertas do povo ao Senhor.
Acontece que o contexto político, social, econômico e cultural do tempo de Eliseu não era de acordo com aquilo que o Senhor requer. Estamos no Reino do Norte, chamado Israel, onde ministrava o profeta, sucessor de Elias. Os reis deste período, quando resolveram abrir as fronteiras de Israel aos povos vizinhos, para com isso não apenas expandir seus negócios, mas também seus territórios abriram-se também para uma religião de um povo diferente, que não seguia o Senhor, mas os ídolos. A religião oficial tornou-se uma religião sincrética, uma mistura de adoração ao Senhor e, ao mesmo tempo, adoração aos deuses. Os sacerdotes desta religião sincrética estavam profundamente ligados ao trono, trabalhando para o rei e para o sistema político e econômico que o rei representava. Os sacerdotes, ao invés de trabalharem pelo povo e manterem o povo fiel ao Senhor Deus de Israel, aceitavam e corroboravam com o sincretismo do povo. Os salários deles eram pagos pelo rei e o templo onde serviam, o templo erguido em Samaria, era conhecido não como o templo do Senhor, mas como o templo do rei e do reino.
Além disso, a expansão territorial e a política de alianças com reinos vizinhos – alianças que principalmente visavam o econômico – e que trouxeram para o reino de Israel certa prosperidade econômica e força política, não contemplavam o povo, no sentido máximo da palavra povo. Quero dizer: o povo, não participava dos dividendos econômicos, não enriqueceram com isso, antes, apenas uma elite conseguiu, de fato, poder. Tal elite, não preocupada com o bem estar do povo, egoisticamente comprometida consigo mesmo, apertava o povo cada vez mais nos impostos e no pagamento de dívidas. Os juízes também estavam comprometidos com a injustiça e julgavam com parcialidade as causas, depauperando e negando direitos ao povo. A sociedade do reino do Norte era uma sociedade profundamente corrupta, elitista e injusta.
É dentro deste quadro que Deus levanta seus profetas como Elias e Eliseu. Homens comprometidos com Deus – o único Deus de Israel – e que representam em nosso contexto, a justiça, a paz, a lei, a religião israelita. Como representantes e mensageiros de Deus, tais homens falam ao povo e aos dirigentes do povo as palavras de Deus: palavras que clamam por metanóia, conversão verdadeira; palavras que ordenam aos dirigentes a justiça e o direito. Palavras acompanhadas de gestos de misericórdia e generosidade, fé e obras.
Por conta desta corrupção da classe sacerdotal, mancomunada com os opressores e sincrética, os homens que reconheciam o nível deplorável de corrupção da religião, mas que, ao mesmo tempo, não queriam deixar de observar a Lei do Senhor, levavam aos profetas de Deus, os verdadeiros representantes da religião pura, as ofertas que a Lei ordenava. Foi assim que este homem saiu de sua terra, Baal-Salisa, para entregar ao homem de Deus, Eliseu, a sua oferta, o pão das primícias.
O Livro do Levítico, no capitulo 23, versículo 10, diz que o profeta ou o sacerdote, tinha o direito sobre tais pães. Eliseu poderia ter ficado com esses pães e saciar somente a sua fome, seria legítimo. Contudo, a ordem do profeta ao homem que lhe trouxe a oferta é para que este distribua os pães entre as pessoas que ali estavam (mais de cem pessoas), para que não somente ele, mas todos fossem saciados. Diante da ordem do profeta, que neste contexto é Palavra do Senhor, o homem reagiu com incredulidade (representando aqui, em contraponto ao que a fé ordena, nós mesmos, os seres humanos): “Como poderia eu distribuí-los para cem pessoas?” (vers. 43). Eliseu insistiu e então seu servo obedeceu, porque diante da Palavra que vem de Deus a fé nos impele à obediência. Diz o texto: “O servo/ajudante distribuiu os pães em presença do povo. Eles comeram, e ainda houve sobra, de acordo com a palavra do Senhor.” (vers. 44).
A Igreja de Jesus, representada no texto de hoje pela comunidade de João (o Evangelho segundo João), viu no relato que lemos no Segundo Livro dos Reis, o modelo narrativo para um milagre realizado por Jesus na Galiléia. Os outros Evangelhos, chamados Sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), também narram tal milagre e este ocupa um lugar central nos quatro Evangelhos por ser o sinal que encerra a atividade de Jesus na Galiléia em palavras e em obras e que exige do povo a adesão a Jesus ou a recusa a Jesus. Decisão da parte do ser humano é o que Deus sempre requer quando age e quando fala.
Conta-nos João que Jesus estava à margem do Mar da Galiléia, também conhecido como Mar de Tiberíades e que grande multidão o acompanhava, porque tinham visto os milagres (sinais) que Jesus estava operando. Jesus, como Moisés, líder de um povo oprimido (não mais o Egito, mas Roma), sobe no monte, não para aprender de Deus, como fez Moisés, mas, para falar as Palavras de Deus, como também fez Moisés depois de ouvi-Lo. Contudo, Jesus, o Filho de Deus, não está apenas preocupado com a alma do povo, com a catequização do povo, com a doutrinação do povo; preocupa-Se também com o corpo do povo. Preocupa-Se em saciar, assim como Deus também se preocupa, a fome do povo. No caso aqui, fome de pão. Fome física.
Disse Jesus a Filipe, um dos “Doze”: “Onde compraremos pães para que tenham o que comer”? (vers. 5). Se na primeira leitura a incredulidade humana ante a Palavra do Senhor que nos leva à fé é representada pelo servo do profeta Eliseu, aqui, no Evangelho, a incredulidade humana é representada pelo apóstolo Filipe: “Duzentos denários de pão não bastariam para que cada um recebesse um pedacinho” (vers. 7). Informa-nos João que havia ali cinco mil “homens”, isso significa que podemos multiplicar muitas vezes o número total de pessoas, pois são contados somente os do sexo masculino. Podemos ler: cinco mil famílias, ou seja, uma quantidade enorme de gente. Filipe, como todo ser humano, só enxerga o que os seus olhos lhes mostram: o limite, a circunstância, o obstáculo. Diz que nem duzentos denários dariam para alimentar tanta gente: para termos uma idéia da quantia significativa de que fala Filipe, um denário é o pagamento da jornada de um dia de trabalho!
Para reforçar o caráter humano que não consegue andar por fé, mas pela vista, pelo o que a circunstância mostra, outro discípulo, André, diz ao Senhor: “Há aí um rapaz que possui cinco pães e dois peixinhos; mas o que é isso para tanta gente”? (vers. 9). André informa ao Senhor que no meio daquela multidão existe um garoto que traz no seu embornal comida, mas que era muito, muito pouco, se o objetivo era alimentar toda a gente. André e Filipe como eu e você só enxergamos o que nos mostram nossos olhos quando deveríamos, ainda que enxergando a realidade, andar por fé.
Jesus toma os cinco pães e os dois peixinhos, dá graças e distribui os alimentos, saciando, desta maneira, a fome do povo. O que aprendemos com este sinal, com este milagre de Jesus?
A maioria das pessoas que lêem este relato pára aí, exaltando o poder de Jesus em multiplicar pães e peixes. Contudo, estou certo que o “X” da questão não está no poder do Senhor que realiza milagres, mas no que proporcionou o milagre! Diante da incredulidade dos Seus, que andavam por vista, pelas circunstâncias, Jesus toma do que não é Seu materialmente falando, e sacia a fome de uma multidão. Quero com isso dizer que o “âmago”, o “X” do milagre da multiplicação dos pães e dos peixes não está no caráter divino do sinal: Deus que multiplica alimentos; mas reside num garoto, num rapaz, que possuía os cinco pães e os dois peixinhos e os doou para que Deus realizasse o milagre. Sem tais pães e tais peixes do menino, o milagre não teria acontecido. Deus quer nos ensinar algo aqui.
Se foi o alimento que aquele menino trazia consigo que proporcionou o material sobre o qual Deus realizou o milagre, antes, foi a generosidade do menino, ante a solicitação dos discípulos para que ele doasse seu alimento com o objetivo de alimentar pessoas com fome, que realmente proporcionou o milagre! Sim, meus irmãos, Deus age e continua agindo, mas Deus, ao contrário do que Dele imaginamos, não age espetaculosamente, antes, quer que sejamos co-agentes de Sua ação, do Seu milagre. Deus não precisa depender de nós para nada, Ele é o Soberano Deus, mas quer que nós, seres humanos falhos, até mesmo incrédulos diante das circunstâncias, participemos com Ele do milagre.
O verdadeiro milagre não está em Deus multiplicar pães – Deus pode tudo, meus irmãos, pode até criar do nada, pães! – o verdadeiro milagre aqui é a generosidade deste garoto que não foi egoísta com o que era só dele – como o profeta Eliseu – antes, doou o que lhe pertencia de direito, para que o milagre fosse realizado!
Sabe, meus irmãos, a maioria de nós, ficamos apenas na espetaculosidade do milagre! O que nos encanta é a abertura do mar Vermelho e o fechamento deste engolindo os inimigos do Povo de Deus! O que nos fascina é que cinco pães e dois peixinhos alimentaram cinco mil famílias, no entanto, nos esquecemos que antes do mar abrir, Israel teve que ousar em fé diante do mar fechado e marchar de encontro a este que somente então, abriu-se. Esquecemos-nos da figura deste menino, deste garoto, o dono dos pães e dos peixes que proporcionou o material para o milagre! Quando agimos assim, no fundo somos infantis, pois o que nos chama atenção é o mais óbvio: Deus realiza milagres. Esquecemos do mais importante: para realizar milagres, Deus não abre mão de nós, antes, requer de nós decisão que proporcionará o milagre!
Ter uma fé infantil, focalizada somente no ato milagroso, esquecendo que Deus requer de nós decisão para realizar o milagre, não nos leva a lugar algum! No fundo, até nos paralisa! Sim, quantos de nós sofremos de paralisia espiritual, ou seja, não avançamos, não crescemos na fé, porque preferimos passar o período de nossa vida na infantilidade de uma fé que não requer de nós decisão alguma, deixando tudo para Deus realizar! Assim, se fracassamos, se o milagre que queremos não acontece, culpamos Deus, nos decepcionamos com Deus, enquanto salvamos nossa pele!
Deus deseja, como demonstrou, saciar as nossas fomes: fome de pão, fome de paz, fome de cultura, fome de família, fome de amor, de perdão, de amizade; fome espiritual, fome de alegria; contudo, antes de realizar o milagre de saciar nossas fomes, Deus requer de nós decisão: Ele não fará o milagre sem nós; Ele não é mágico, não é leviano, e sempre requer de nós, não a isenção, mas a nossa participação. Nossa omissão impede milagres.
Antes como agora, Deus é o mesmo! Antes como agora, para que milagres se realizem, Deus requer de nós uma postura como a postura daquele menino que tinha no seu embornal os cinco pães e os dois peixinhos. Deus requer de nós generosidade, ação que proporcionará a realização do milagre.
Você quer saciar a sua fome de pão? Quer ver saciada a sua fome de amor? Quer saciada a sua fome de cultura? Quer saciada a sua fome de amizade, de amor, de perdão, de paz? Proporcione todas essas coisas aos que estão ao teu redor. Seja generoso! Participe não se omita: doe amor, doe pão, doe paz, doe amizade. Oferte perdão, oferte cultura, participe disso! Doe e quanto mais generoso você for, mais milagres acontecerão e você assim como eu e todos ao nosso redor, participaremos dos milagres que nossas ações proporcionarão.
Falamos tanto das fomes do mundo; reclamamos tanto dos poderosos deste mundo e dos sistemas opressores deste mundo; lamentamos tanto sobre nossas fomes; mas a pergunta é: o que estamos fazendo para solucionarmos isso?! Estamos esperando que os céus se abram e como um espetáculo Deus desça de seu trono para nos resolver as demandas? Isso não vai acontecer, pois este não é o modo de Deus agir! Deus nos solicita-nos, chama, requer de nós decisão: participaremos ou não com o que temos e o que somos para que os milagres aconteçam?
Lembra da canção? “Depende de nós, se este mundo ainda tem jeito, apesar do que a gente tem feito, se a vida sobreviverá?” Ivan Lins foi muito “evangélico” nesta canção! É isto exatamente que o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes nos ensina! Depende de nós, de mim e de você!
Agora, digo que depende de nós e não do mundo inteiro! Nós que cremos no Evangelho, que seguimos a Cristo. Digo que depende de nós os que somos cristãos! Por quê? Porque os valores dos Evangelhos estão em rota de colisão com este mundo. Porque a lógica do mundo não é a lógica do Evangelho. Porque os valores do Evangelho nos ordena a agirmos diferentes do que os valores do mundo ordenam. É isso o que nos ensina o Apóstolo Paulo na Carta aos Efésios, capítulo 4, versículos 1 a 6: temos que viver a nossa vida de acordo com o chamamento que recebemos. Qual chamamento: sermos luz e sal desta terra. Temos que ter humildade – o mundo exige soberba -, temos que ter mansidão – o mundo nos exige destempero, egoísmo, pragmatismo: ser implacável -, temos que ter paciência – o mundo nos exige pressa: pressa em ter, em ter, em ter-, temos que ser suporte em amor: o mundo nos exige viver só para nós e para aqueles que egoisticamente amamos. O mundo nos exige divisão, não unidade, como nos exige o Evangelho.
Por isso tudo, cabe a nós, cristãos, seguidores de Jesus, agirmos em fé, em amor, em generosidade, em amizade, fraternidade, ou seja, agirmos ao contrário do que o mundo nos exige, para que este mundo seja transformado, para que pães sejam multiplicados, para que nossas fomes sejam saciadas. Sim, depende de nós!
Deus nos abençoe e nos faça entender que depende de nós!
Rev. Márcio Retamero

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