Descanso em saber que o Senhor é meu Pastor
Mensagem: Descanso em saber que o Senhor é o meu Pastor
7º Domingo após Pentecostes - 19/07/2009
Dr Ricardo Pinheiro - membro e advogado da Comunidade Betel do Rio de Janeiro
Uma das coisas que considero mais fascinantes na Graça de Deus é a sua natureza por si só paradoxal. Afinal, ela é Graça porque é de graça, porque é favor, ninguém compra nem se torna merecedor dela. Isso a torna extraordinária, mas também, de outro modo, assustadora. E por quê? Porque nos obriga a aprender a caminhar com a certeza de que todas as coisas já foram realizadas, de que tudo se consumou. E “tudo” é “tudo” mesmo!
O que assusta é justamente não precisar fazer, não precisar dar minha contribuição nessa obra toda! Isso vai de encontro ao apelo de nossa natureza essencialmente ligada aos méritos, ao sistema perverso (posto que é barganha) do toma-lá-dá-cá. Não precisar fazer nada a não ser confiar em absoluta entrega e total confiança, rendido a esta Graça em mim, é, de fato, algo assustador e extraordinário ao mesmo tempo!
Contudo, bom que se diga que não é fácil crer que é assim porque não é! Necessário se faz uma caminhada de renúncia, mas, sobretudo, de fé. É por isso mesmo que quem crê entra no descanso!
Mencionei a questão do toma-lá-dá-cá para exemplificar uma verve que nos toma por natureza. Afinal, aprendemos desde a mais tenra idade que assim as coisas “funcionam”. No campo da religião, conforme já aprendemos aqui em Betel, muita gente acaba preferindo viver (ou sobreviver) na religião porque lá as coisas funcionam dentro desse sistema.
A alma da gente é perigosa, é viciante, é desejosa de poder realizar e criar marketing disso. “Eu fiz!”. “Eu tenho participação pelo meu esforço!”. E por aí vai...
Nem sempre se enxerga que isso é um aprisionamento que contrasta com a liberdade que só Cristo pode dar. Liberdade pra ser Nele, que é em mim! E não apenas isso, mas que também me chama unicamente a crer e confiar, a entregar meu coração, como diz Provérbios 23,26. Poucos querem o usufruto dessa liberdade, pois, a contrário do que se vê na alma da gente, temos que aprender a ser adultos na experiência da vida e a crer mesmo contra todas as nossas “certezas”. Liberdade em Cristo é pra quem caminha com os pés na verdade – a começar na verdade do seu ser – e se rende, em profunda verdade e confiança, à Graça que nos inspira a viver não mais para nosso prazer (ou mérito), mas sim para Aquele que por nós morreu... O gozado é que tudo isso vai ocorrendo de forma absurdamente natural em nós enquanto vivemos...
Graça de Deus nos impulsiona a nos auto-enxergarmos. A coisa perpassa pelos corredores mais verdadeiros daquilo que haja em nós e do que sejamos nós!
Muita gente pensa que é alguma coisa, mas fato é que ninguém é coisa alguma. No máximo, estamos sendo Nele. Pois somente Ele é. “De eternidade a eternidade Tu és Deus”, diz o Salmo 90. Ou, como no original, “De eternidade a eternidade, Tu, Deus”.
E quando é que eu sou?
Quando Ele é em mim, eu passo a ser. De modo que, viver confiadamente na Graça de Deus é saber que Ele é quem me faz qualquer coisa, seja bem-aventurado, livre, perdoado, salvo, filho em adoção, co-herdeiro com Cristo, mais que vencedor, e por aí vai...
Se “ser Nele” é difícil, pra não ser é fácil! Querem ver? Basta que me esconda em alguma coisa que me convença ou me autojustifique pra continuar fazendo na expectativa de algo em troca. Mesmo que seja uma fobia. E tudo isso porque a alma humana gosta desses autoenganos pra crer que ela pode. Só que a vida passa e a gente não vê resultado que se perpetue como Bem para nossa vida toda; pois, quando muito, o engano ocorre apenas para alguns dias... Fato é que o processo se repete. Os autoenganos vão se instalando como doença e como falta de fé, sorrateiramente... Trata-se de uma agonia que impede que os benefícios da Graça sejam discernidos por mim e por qualquer um de nós como Bem para o meu e para o nosso Hoje.
Você deve estar se perguntando: o que isso tem a ver com a mensagem de hoje? Por que, afinal de contas, tudo isso está sendo falado?
Porque pra crer que Jesus é o Bom Pastor, como nos inspira a leitura do Lecionário Litúrgico para o dia, é preciso experimentar que Ele é de fato o meu Bom Pastor, reconhecendo na minha intimidade, nos porões do meu ser, que isso é uma realidade que se constrói apesar de mim! É pra provar a realidade do que é como um dia escreveu Clarice Lispector:
“... uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente”.
Apesar de mim, Ele me amou antes que houvesse mundo! Apesar de mim, sem oferecer nada que lhe seja agradável (porque TODOS PECARAM e destituídos estamos da glória de Deus), Ele me aceitou e me regenerou, e me santificou, e me pôs vestes novas, e anel de identificação de filho no dedo, e houve festa!
“Tudo que é meu é teu!”, disse Jesus. E Ele ainda nos diz hoje: “porque estavas morto, e revivestes, perdido, e foste salvo...”
Detalhe nisso tudo é que este Bem só é discernido como Bem para mim se eu descansar em Sua Graça. E pra descansar, terei que cessar de desejar fazer, desejar realizar, desejar tornar-me participante. Se é Graça, já não é mais pelas obras que eu intentar realizar!
E é neste cenário de confiança como Bem que se experimenta que eu convido a todos à leitura do texto desta mensagem, que se encontra no Salmo 23. Hoje, no entanto, o convite para um novo entendimento deste que é pra mim um das mais belas confissões de fé do Antigo Testamento, quiçá de toda a Escritura [LER O TEXTO BÍBLICO].
“O Senhor é o meu pastor, e nada me faltará!”
Quem não quer poder não mais precisar de coisa alguma?
Caio Fábio diz que o Salmo 23 “mexe com nossas confianças mais infantis, e, por essa razão, nos acalma como se estivéssemos mamando nos peitos de Deus”.
No entanto, a maioria ama o Salmo apesar de achar que ele é irreal. De fato, o Salmo não parece condizer com a Realidade. Parece prometer o que não cumpre.
Será que é assim?
Eu creio que a promessa do Salmo do Pastor se cumpre nas vidas daqueles que conheceram o Pastor do Salmo.
Mas como se cumpre ele se a vida parece gritar quase sempre o contrário? O que mais se vê à volta é as pessoas se queixando do tanto que lhes falta!
Ouvir as pessoas, sejam elas cristãs ou não, é sempre um exercício de ouvir carências e necessidade.
E por que isso tudo? Porque o que se apregoa por aí nos “outros evangelhos” é o lamento da necessidade humana que exige ser saciada. São estes “outros evangelhos” que estão em moda, entupindo templos de seres idiotados pela presunção de se acharem dignos de qualquer coisa (por isso pedem e fazem “campanhas” para receberem em troca), estes mesmos que dizem que te amam em Cristo desde que (este “desde que” é o veneno do toma-lá-dá-cá presente na nossa natureza corrompida e viciada na barganha), que te convencem que pra que você faça parte do que se supõe ser a família de fé deles será preciso que você deixe de ser você pra se adequar à fôrma e se tornar um não-você, que confundem “conversão” – que é “metanoia” – como exercício de coreografia, que confundem “santidade” – que é entrega em total confiança à Graça e que se dilata na medida em que conhecemos e prosseguimos em conhecer – com comportamentalismo (de preferência, que seja comportamentalismo no âmbito da moral, pois, para esses “outros evangelhos” que se pregam por aí, pecado é a transgressão comportamental no âmbito da moral, sobretudo se passar pela anatomia das regiões genitais, diria. A barganha vale. O resto vale). A lista de todas as carências humanas não pararia aqui, todos sabemos.
Triste tudo isso, não? Triste perceber que o que fizeram do Evangelho do Bom Pastor é o que não se vê na boca, nem nos frutos oferecidos por estes que se auto-proclamam ovelhas de seus pastos. Muito pelo contrário! O que se apregoa por aí é que a fé deve ser a fé da abastança material em primeiro lugar, da “restituição” das coisas pretensamente roubadas por um inimigo que é fetiche para a manutenção deste “status quo” que perverte e prossegue em perverter mentes e corações, do toma-lá-da-cá, do ser abençoado porque eu me imponho a afirmações e decretos aprendidos, não como discernimento simples que se experimenta no interior, mas porque me disseram que assim dá certo e eu apenas repito numa macaquice que me leva a chamar abismos, como cego guiando cegos para o abismo.
O que digo é simples: “O Senhor é meu pastor e nada me faltará” significa não que não tenhamos mais necessidades nesta existência, mas sim que para aquele para quem o Pastor é Tudo, tudo o mais vira Nada.
O Senhor é o meu Pastor, e porque o Senhor é o meu Pastor, confiadamente descanso a ponto de dizer, seguro: nada me faltará!
Quando se encontra o Pastor nada muda, necessariamente, do lado de fora. Tudo, porém, que nos falta fora, é reduzido a Nada em razão do Tudo que se realiza dentro.
Por isso mesmo, a falta de ar, a necessidade de direção, todas as fomes, bem como todas as contradições da existência, sejam elas como o vale da sombra da morte mesmo quando as coisas parecem estar “em ordem”, assim como tudo o mais, dão lugar a pastos verdejantes, a águas tranqüilas... E as sombras da morte são transformadas em vereda de vida pela Companhia interior do Bom Pastor, o mesmo que nos garante que estará conosco todos os dias.
Caio Fábio diz que o chamado do Salmo 23 é para a renúncia dos desejos tirânicos e a entrega à quietude confiante. Assim, bem-aventurado é todo aquele que no espírito pode dizer a si mesmo: “O Senhor é a minha porção e a minha herança.” Ou ainda: “Bem nenhum tenho, senão a Ti somente, ó Senhor”.
Rubem Alves, numa de suas brilhantes obras (“Perguntaram-me se acredito em Deus”), escreveu-nos uma crônica não menos brilhante, falando sobre a confiança no Pastor Protetor, intitulada “A TRANQUILIDADE DAS OVELHAS”, que dizia:
“As crianças reunidas na tenda do Mestre Benjamin estavam com medo. Mestre Benjamin sentiu o medo nos seus olhos. Foi então que uma delas perguntou: “Mestre Benjamin, há um jeito de não ter medo? Medo é tão ruim.” Mestre Benjamin respondeu: “Há sim...” E ficou quieto. Veio então a outra pergunta: “E qual é esse jeito?” “É muito fácil. É só pensar como as ovelhas pensam...” “Mas como é que vou saber o que as ovelhas estão pensando?” Mestre Benjamin respondeu: “Quando, durante a noite, as ovelhas estão deitadas na pastagem, os lobos estão à espreita. E eles uivam. As ovelhas têm medo. Mas aí, misturado ao uivo dos lobos, elas ouvem a música mansa de uma flauta. É o pastor que cuida delas e não dorme nunca. Ouvindo a música da flauta elas pensam: “Há um Pastor que me protege. Ele me leva aos lugares de grama verde e sabe onde estão as fontes de águas límpidas. Uma brisa fresca refresca a minha alma. Durante o dia ele me pega no colo e me conduz por trilhas amenas. Mesmo quando tenho que passar pelo vale escuro como a morte eu não tenho medo. A sua mão e o seu cajado me tranqüilizam. Enquanto os lobos uivam, ele me dá o que comer. Passa óleo perfumado na minha cabeça para curar as minhas feridas e me dá água fresca para sarar o meu cansaço. Com ele não terei medo, eternamente...” “E os lobos? Eles vão embora? Eles morrem?” “Os lobos continuam a uivar. E continuam a ser perigosos. O Pastor não consegue espantar todos eles. E por vezes eles atacam e matam. Mas as ovelhas, ouvindo a música da flauta do Pastor dormem sem medo, não porque não haja mais perigo, mas a despeito do perigo. (....) Coragem é isso: dormir sem medo a despeito do perigo...” [págs. 71-73]
Que Ele, o Bom Pastor, nos abençoe, apesar de nós. Que seja assim sempre: apesar de nós! Unicamente por Sua maravilhosa Graça!
Conforme aprendemos no Espírito da Palavra, bem-aventurados os que a si mesmos se esvaziam, pois esses possuem Tudo, no Nada.

Comentários
Deus te abençoe, meu filho!
Ricardo, meu filho amado, adotado no meu coração e no tempo certo.
Que beleza de texto!
O que mais posso te desejar, depois de ter lido isto? As minhas orações matinais, aquelas que gosto de fazer assim que melevanto são para meus filhos, netos e por todos aqueles que um dia através de você, se tornaram filhos, filhas, netos e mutos amigos.
Que a Graça escandalosa do Senhor continue te abençoando e te dando sabedoria para estar defendendo os direitos humanos, os preconceitos e tudo aquilo que o nosso Pai não se agrada.
Que Ele te mostre sempre o verdadeiro Caminho, aquele que um dia Ele colocou para você pisar.
Parabéns mais uma vez, meu filho!
Com muito carinho e ternura materna, um beijo grande no seu coração.
Sua mãezinha que te ama muito e quer sempre te ver feliz e realizado.
Anna Maria
P.S. Um abraço para o pastor Márcio.