Vítima da "escravidão heterossexual", comunidade LGBT ainda busca a libertação


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Êxodo é uma palavra plena de significados. No teatro grego, êxodo era o nome técnico do episodio final da tragédia; já no teatro romano, era o final de uma comédia ou "o episódio cômico que se seguia à representação de uma tragédia" (Houaiss). Êxodo também é um conceito geográfico: a emigração de povos ou de pessoas em massa. A etimologia primeira da palavra êxodo é saída, partida, marcha, procissão... Nas Escrituras Cristãs, Êxodo é o segundo livro, parte do que chamamos de "Pentateuco", um dos cinco livros atribuídos a Moisés pela tradição.

Um tempo de penúria e fome assolou a região, os irmãos de José foram obrigados, por isso, a "descer" ao Egito. Lá, encontraram-se novamente com seu irmão que antes tentaram matar, movidos pela inveja e pelo ciúme, mas que pelo medo de um deles, Rúben, foi vendido para ser escravo. Uma das cenas mais marcantes da história é o reencontro de José com seus irmãos. Esses voltaram à sua terra e trouxeram seu pai, Jacó. O livro do Gênesis termina contando a morte do poderoso e misericordioso José, "farto de anos" (110 anos). "Embalsamaram-no e o puseram num caixão no Egito".

E então tem início o livro do Êxodo e o narrador nos informa que passado o tempo, subiu ao trono do Egito um Faraó que não conhecia José e suas obras. Enquanto o povo do qual descendia José e que emigrou para o Egito por conta da fome, se multiplicou tanto que "a terra se encheu deles". Uma razão de Estado levou o Faraó a escravizar os hebreus; ele temia que aquele povo numeroso, no momento de guerra, se juntasse ao inimigo e então formasse, contra eles, a quinta coluna, despojando-os e saindo da terra.
O livro então passa a narrar o nascimento daquele que libertaria o povo, Moisés, o herói do Êxodo. Enviado por Deus, é Moisés que vai confrontar Faraó e libertar o seu povo da escravidão, da opressão. A saga é eletrizante: confrontos, rãs, moscas, águas do Nilo transformadas em sangue, cajado que se transforma em cobra e uma fuga de tirar o fôlego do leitor. Num momento de ápice da narrativa, os hebreus, fugindo, encontram o Mar Vermelho. No encalço deles, os exércitos de Faraó. Pensam em desistir, em retornar, mas a ordem vem: "dize ao povo de Israel que marche". Num evento milagroso, o mar se abre, eles atravessam a "pé enxuto" e, do outro lado cantam a vitória ao ver o mar engolir "carros e cavaleiros" do exército do inimigo. É disso que trata o livro do Êxodo, de libertação da escravidão. O êxodo enquanto conceito geográfico também trata, sob o ponto de vista de quem é agente dele, ou seja, os emigrantes, de libertação: do desemprego, da fome, da falta de oportunidade de ser feliz. Afinal, não é pra isso que cá estamos, para sermos felizes?
Desde a última segunda-feira eu passo por um intenso luto. Fui acordado no amanhecer com a terrível notícia do falecimento de minha tia materna. Era a minha segunda mãe. Com ela aprendi muito do que hoje sei e do que hoje gosto: aprendi a amar Bethânia, Chico, Caetano, Gal, Dolores, Caymmi, Maysa e todos que são o que nós temos de melhor em MPB. Com ela, aprendi a gostar de ler: foi ela que me presenteou com a série Vaga Lume, publicada pela Editora Ática. Com ela, aprendi a amar os poetas que falam do amor, do amor doído, não realizado e do amor que se realiza plenamente unindo corpos e almas. Bicicleta, carrinhos, "Legos"... Tanta coisa! Contudo, desde a notícia fatídica, o que mais tenho lembrado nestes últimos dias é do Livro do Êxodo e de tudo o que ele me ensina para a minha existência e a palavra recorrente não é outra senão libertação.

É possível alguém se acostumar, se conformar até mesmo se moldar à escravidão? É possível um ser humano tornar sua mentalidade escrava de um poderoso faraó? É possível levar uma vida inteira a mente cativa a esquemas que escravizam, anulando completamente o que somos até nos tornarmos um ninguém? Sim, desgraçadamente, é possível!
O livro do Êxodo nos conta que, errantes no deserto, os hebreus murmuravam contra seus líderes Moisés e Aarão; murmuravam contra Deus que os enviou a eles; murmuravam contra a falta de água e chegou um momento que murmuraram contra a falta de pão e de carne. Disseram a Moisés: "Quem nos dera tivéssemos morrido pela mão do Senhor, na terra do Egito, quando estávamos sentados junto às panelas de carne e comíamos pão a fartar!" Os hebreus estavam com saudades da escravidão, do pão e da carne da escravidão. Amoldaram-se tanto que suas consciências tornaram-se tão escravas quanto seus corpos, a mente era escrava.

Existencialmente, homossexuais masculinos e femininos aos milhões ainda são escravos, estão sob a autoridade de um poderoso faraó que lhes comanda a vida. Tenho visto isso dia a dia, ouço histórias de uma vida inteira de escravidão e de costume com a escravidão. Testemunhei isso e ainda testemunho. Homens e mulheres que são escravos desta sociedade que tem sido senhora má e perversa com eles, pois existe a norma e a norma é ser heterossexual, quem não está de acordo com a norma, é preciso escravizar, até que não tenha mais consciência de si mesmo e se torne tão dócil a ponto de não ser um ninguém, tão somente um ser humano bem adestradinho.
Tenho visto homossexuais, homens e mulheres, escravos de poderosos faraós, vivendo nos "Egitos" existenciais, terra que os tornou seres completamente nulos ou que vivem nas sombras, arriscando-se. Os poderosos faraós são muitos: pai, mãe, irmãos, família, religião, a norma social, a homofobia, todas as formas de preconceitos; e também tenho visto talvez aquele que seja o mais poderoso na hierarquia dos faraós: o sujeito mesmo, que se conformou tanto com a escravidão, que ao tornar sua mente cativa, tornou-se, ele mesmo, um faraó para si mesmo.
Vejam a desgraça: é possível ser seu próprio faraó! Escravo de si mesmo, porque não admite tornar-se livre. Tenho visto gente - e gente boa, competente, rica em talentos, em dons - que se libertos fossem, escreveriam uma linda história de vida e deixariam certamente suas marcas. Gente que se recusa a se libertar da escravidão do não ser porque tem medo de ser, faltam-lhes coragem e desejo de romper as cadeias, de se libertarem de seus faraós, de passarem por momentos críticos - os mares vermelhos - e, por isso, não cantam, nem cantarão o hino da vitória.
Não, não pensem que foi fácil pra mim. Não é pra ninguém. Não foi pros hebreus, não foi com meu melhor amigo gay, com a minha melhor amiga lésbica e nem será com você também. Não estou dizendo que é fácil assumir-se, matar o que nos mata - o medo de ser livre -; não imagino que em algum lugar do mundo seja: não viram as bombas homofóbicas na tão polida e rica Dinamarca que jogaram sobre os nossos que participam do "Out Games"? Não, eu não sou ingênuo, tampouco utópico, delirante, pra achar que se libertar dos preconceitos internos e externos que nos escravizam desde a infância ou dizer aos faraós da nossa existência que daquele momento em diante não mais seremos escravos deles. Acreditem em mim: passei por isso e sei como é dolorosa e difícil a conquista da liberdade e conheço outras biografias que confirmam isso.

No entanto, eu não posso te encorajar a seguir adiante, até que a morte chegue nessa tua condição de escravo. Simplesmente me recuso ao papel de "sancionador" de escravidão, porque sei como é bom ser livre e ser quem eu sou. Também sei como pode e é triste alguém passar a vida na escravidão, servindo ao faraó pai, mãe, família, religião, amigos preconceituosos, patrões preconceituosos e ao faraó "Eu". Não vou te mentir: vai ter confronto, vai ter luta, vai ter gente desertando de você e que não vai mais falar com você. Sim, vai ter gente que você ama de verdade, mas que não vai amar a sua verdade porque isso é insuportável para eles, sabe-se lá a razão disso, pois razão alguma existe no preconceito e na homofobia. Vai ter rupturas duras com família, com religião, com esquemas que até hoje nutriu a sua escravidão, mas que você de tão acostumado com isso gosta deles. Não vou te enganar que os faraós agirão como aquele do Egito agiu com o povo hebreu: vão endurecer e não vão querer deixar você sair da escravidão do ser. Vai ter momento que você até mesmo sentirá saudades da tua condição de escravo, principalmente se te faltar neste teu êxodo existencial, o pão e a carne, as panelas cheias que você se fartava. Não vai ser fácil!

Deixa eu te dizer uma coisa: vale a pena! Vale a pena ser quem você é e viver como você é. Vale a pena pagar qualquer preço pela libertação e viver livre dessa escravidão do ser. Vale a pena passar pelos confrontos, lutar com os nossos faraós e os vencer; vale até mesmo sentir a saudade do pão e da carne, pois talvez esta lembrança te fará lutar mais por você mesmo até que você coma um melhor pão e uma carne de primeira. Vale a pena! Sabe o que basta para ser livre? O desejo de sê-lo! O desejo incontrolável de não ser mais escravo e de ser quem você realmente é. Só não faça uma coisa consigo mesmo: não seja escravo a vida toda no teu Egito! Seja agente da tua história e o seu próprio libertador. E me chame para cantar junto contigo o canto da tua vitória quando passares a pé enxuto o teu mar vermelho. É isso o que eu te digo: marche!
Dedico este artigo a minha tia, que não conseguiu fazer, enquanto viveu o seu êxodo, mas que enfim, fez o êxodo final. Descanse em paz, tia querida! Enquanto aqui estiver, lutarei!

* Márcio Retamero, 35 anos, é teólogo e historiador, mestre em História Moderna pela UFF/Niterói, RJ. É pastor da Comunidade Betel do Rio de Janeiro - uma Igreja Protestante Reformada e Inclusiva -, desde o ano de 2006. É, também, militante pela inclusão LGBT na Igreja Cristã e pelos Direitos Humanos. Conferencista sobre Teologia, Reforma Protestante, Inquisição, Igreja Inclusiva e Homofobia Cristã. Seu e-mail é: revretamero@betelrj.com.