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Projeto Portas Abertas Advento 2011 - 4º Encontro
IGREJA DA COMUNIDADE METROPOLITANA DO BRASIL
DEUS AINDA FALA:
DERRUBANDO MUROS, CONSTRUINDO ESPERANÇA!
PROJETO PORTAS ABERTAS
ADVENTO 2011
4º ENCONTRO: No Presépio com Maria
Texto Base: Lc 1.26-56
Versículo-chave: “Agora está tudo claro: sou serva do Senhor, quero fazer a sua vontade. Que aconteça comigo conforme todas estas palavras”. Lc 1.38
Peço licença aos meus irmãos e irmãs da ICM Brasil para fazer do texto deste nosso quarto e último encontro do Projeto Portas Abertas Advento 2011, um texto de testemunho ou quase biográfico.
Como muitos sabem, quando cheguei a este mundo, meus pais já professavam a fé cristã na Igreja Batista. Meu pai é “batista de berço” e minha mãe se converteu nesta Igreja aos 15 anos de idade. A família paterna há gerações contribuiu para o crescimento, avanço e estabelecimento dos batistas no Brasil, meu avô paterno, foi pastor e tenho primos pastores nesta denominação.
Já minha família materna é profundamente católica apostólica romana. Minha avó é catalã, avô era um turco cristão e ambos eram católicos romanos, criaram seus filhos e filhas nesta Igreja e até deram um padre para a Igreja.
Cresci, portanto, bem no meio deste “mix” religioso, como muitos de você, certamente! No entanto, na igreja da infância, aprendi muita coisa errada sobre a Mãe de Jesus e todas as vezes que eu ia à casa da minha avó materna, tínhamos um duro embate entorno das imagens de Maria espalhadas por toda a casa, desde a entrada até o quintal dos fundos.
Na Igreja onde fui criado nunca se falava positivamente de Maria. Quando se falava de Maria, falava-se para criticar as devoções e a teologia católica em torno de Maria. Os discursos eram sempre muito ríspidos, duros mesmo, beirando o desrespeitoso. Havia uma necessidade tremenda, que só entendi bem mais tarde, de minimizar, para não dizer anular, o primordial papel de Maria na História da Salvação.
A Igreja Batista chegou ao Brasil na segunda metade do século XIX, logo após a Igreja Congregacional e a Igreja Presbiteriana. Tais igrejas protestantes, até então proibidas no nosso país pela Lei, pois o Estado brasileiro naquela época não era laico (é hoje?!) professava uma religião: a Igreja Católica Apostólica Romana. Com a abertura, os missionários protestantes estrangeiros quando aqui chegaram foram muito combatidos pelo clero católico e encontraram nos estrangeiros residentes no país, seus primeiros adeptos.
O trabalho missionário avançou e não demorou muito para que os primeiros brasileiros aderissem à nova fé; estes, antes, professavam a fé católica e os missionários evangélicos viram nisso uma ótima oportunidade de crescimento. Então, eles começaram a atacar as doutrinas da Igreja Católica, principalmente a figura de Maria, “provando com a Bíblia” (dá pra se provar tanta coisa com a Bíblia, não é verdade? Até mesmo a escravidão!) que os católicos eram idólatras, mariólatras e grandes pecadores.
Teve início então o pior e o mais abjeto tipo de “evangelização”: o proselitismo religioso, popularmente conhecido como “pescar em aquário”. A Igreja Evangélica Brasileira está firmada sobre esta base proselitista e sobre esta ideologia anti-catolicismo. A Igreja Evangélica se fortaleceu e se expandiu arrancando, da Igreja Romana, seus adeptos, que logo viravam missionários leigos, conquistando parentes, vizinhos de porta etc.
O tipo de missão evangélica que se estabeleceu no Brasil foi o americano (da América do Norte), bem diferente do tipo de missão europeia. Os missionários protestantes da Europa quando partiam para a África, Ásia e outros lugares, não agiam como agiram os americanos aqui no Brasil. Havia, além de respeito, o reconhecimento, da parte deles, da Igreja Católica Romana como uma igreja irmã, cristã.
Baseado no proselitismo e no anti-catolicismo a Igreja Evangélica Brasileira traz no seu cerne, na sua essência o anti-marianismo. É preciso ser diferente! É preciso ter algo além deles (católicos), é preciso ter algo nele para criticarmos (Maria e os santos)! Foi ai, que tudo começou.
Criado dentro deste ambiente batista, anticatólico e antimariano, e convivendo com o catolicismo da família de minha mãe, muitas e muitas vezes confrontei minha avó, inclusive com ofensas, à respeito de sua fé e da sua devoção à Maria.
Ela tentava me explicar o que Maria significava para ela e para os católicos em geral, mas eu me recusava a ouvi-la, repetindo sempre o que escutava na escola dominical e do púlpito onde meu primo pastor pregava contra os ídolos da Igreja Católica.
A coisa toda teve outro rumo quando, já adolescente, numa das devocionais em casa, li o conselho apostólico de Paulo: julgai/examinai todas as coisas e retende o que é bom. Nesta época eu já estava de namoro com o calvinismo, mesmo estando na Igreja Batista e, uma vez por semana, me encontrava com o Pastor Presbiteriano da minha cidade para ter com ele aulas sobre a Reforma Protestante, sobre as doutrinas reformadas e sobre a Igreja Presbiteriana, igreja esta que eu acabei aderindo não muitos meses depois.
Um dia, o reverendo que estava me guiando nesta nova etapa da minha fé, me deu dois textos para ler: um era de Martinho Lutero e outro era de Calvino. No domingo anterior, eu tinha estado no culto noturno da Primeira Igreja Presbiteriana de Itaperuna (RJ) e logo após o sermão, boquiaberto, ouvi a Igreja inteira recitando, após o convite pastoral, “professemos a nossa fé”, o Credo dos Apóstolos, oração que tinha ouvido minha avó rezar incontáveis vezes em seus terços e ladainhas. “Como assim?”, pensei! “Nascido da Virgem Maria”? Então aqui eles acreditam em Maria?!
Com tais questionamentos, procurei o pastor que me deu aqueles dois textos que eu falei acima. Nele, Martinho Lutero e João Calvino não só chamavam Maria de Virgem como de Mãe de Deus! Os dois reformadores escreveram belíssimas palavras a respeito da Mãe de Jesus e tinham por ela grande admiração e devoção e foi só então que eu entendi, após a orientação daquele pastor presbiteriano, a diferença de ser um cristão reformado e um cristão evangélico e nunca mais tive dúvidas: sou um reformado!
Os debates com minha avó acerca de Maria passaram a serem conversas gostosas e edificantes sobre Maria. Noves fora os exageros dos católicos romanos sobre a Virgem Maria (sim! Virgem Maria!), comecei a me encantar profundamente pela ternura da espiritualidade mariana.
Sim, eu reconheço que existem exageros no catolicismo, principalmente no popular, em relação à pessoa e obra de Maria e seu lugar na História da Salvação, mas como bem cedo aprendi, graças àquele pastor presbiteriano, nós não podemos jogar fora o bebê junto com a água suja da banheira! “Julgai/examinai todas as coisas e retende o que é bom”, aconselha Paulo.
Bem mais tarde, no seminário, numa das aulas apareceu o tema “Maria”; eu já estava adulto, já tinha lido muito, já tinha superado meu preconceito religioso com os católicos e já tinha plena consciência da minha sexualidade homoafetiva, além de ter lido muito sobre o que é ser homossexual.
A pergunta do colega de classe ao professor de Teologia Sistemática do Seminário Batista do Sul do Brasil, foi a deixa para que o professor proferisse as maiores sandices que eu já ouvi na vida acerca da Igreja Romana, suas doutrinas e, principalmente, sobre Maria, a Mãe de Jesus. Ultrapassou a barreira do respeito e me senti profundamente agredido ali, pois uma das frases do professor foi algo mais ou menos assim: “é por causa dessa devoção mariana, uma devoção afeminada, que a Igreja Católica tem tantos padres gays e seguidores gays!” “Quem tem Deus não precisa de uma deusa”, “Cabra macho não se veste de anjo pra coroar Maria, nem fica aos pés de uma mulher pedindo bênçãos”.
Fiquei indignado com tudo o que ouvi, mas aquela foi a oportunidade de Deus para mim, para que eu entendesse que o anti-marianismo presente na Igreja Evangélica ultrapassa a barreira doutrinária, isso é só a ponta do iceberg. Na verdade é o machismo e a misoginia que são as bases que sustentam o anti-marianismo evangélico, porque, teologicamente falando, não há motivo algum, para que os evangélicos sejam tão antimarianos.
Hoje eu sou um cristão inclusivo, pastor de uma igreja inclusiva, uma igreja que luta pelos direitos humanos e pela libertação total do ser humano (“eu não sou livre enquanto uma pessoa permanecer escrava”). Meu trabalho pastoral e o trabalho pastoral da ICM Brasil é derrubar todo e qualquer muro para construirmos esperança, inclusive, entre nós, cristãos. Hoje eu entendo o machismo e a misoginia presente na igreja evangélica que não lhes permite falar de Maria com ternura e amor, dando a ela o seu devido lugar na história da salvação.
O mesmo preconceito em relação à Maria, Mãe de Jesus, é o que nos assola enquanto homossexuais e lésbicas e travestis e transexuais e bissexuais quando vêm do lado de lá.
Por tudo isso hoje eu sou um pastor que não tem medo de assumir sua profunda e terna espiritualidade mariana, como não tenho medo de assumir sua profunda e terna espiritualidade pentecostal. Não tenho mais vergonha de Maria e me libertei de todo aquele lixo que fora lançado em mim quando criança a respeito da Virgem. Quando somos crianças, as pessoas nos veem como vasos, aonde eles vão depositando muita coisa dentro da gente, coisa que presta e que não presta e o preconceito, a ignorância e a falta de amor, são lixos que muitas vezes depositam em nós. Precisamos nos livrar disso, pois só seremos verdadeiramente livres se esse lixo for jogado fora das nossas vidas.
Eu professo Jesus como meu único Senhor e Salvador. Sei que não há outro Mediador entre Deus e nós, seres humanos. Sei que Ele foi quem morreu na Cruz por mim e que a Trindade possui como o nome mesmo diz Três Pessoas e não quatro. Sei que Maria foi salva por Jesus Cristo, a primeira alcançada pela Graça Irresistível, à primeira convertida! Mas eu sei, hoje, muito mais sobre Maria, do que eu ontem sabia.
Por exemplo, hoje eu sei que Maria assim como minha mãe, foi quem amamentou Jesus quando bebê. Que assim como minha mãe, ela era quem acalentava Jesus no colo, dando-lhe calma e sossego até ele parar de chorar. Hoje eu sei, que assim como minha mãe, Maria preparava com mesmo amor e carinho as papinhas e outras coisas para alimentar Jesus. Maria ensinou Jesus a falar, como a nossa mãe nos ensinou. Maria ensinou Jesus a andar, da mesma forma que nossa mãe ensinou. Maria certamente tomou um grande susto (e os Evangelhos narram) quando achou que Jesus tinha fugido (Ele estava no Templo), assim como nossa mãe levou um baita susto quando sumimos aquela tarde inteira, distraídos nas brincadeiras com nossos amigos de infância.
Hoje eu sei o verdadeiro papel de Maria na vida de Jesus e sei também o primordial papel de Maria na História da Salvação. Ela e somente ela foi a escolhida e certamente fora escolhida não por ser a jovem mais bonita da aldeia de Nazaré, mas por ser uma mulher fiel ao Senhor, como ela mesma declara, uma serva/escrava. Não tinha outro útero aos olhos de Deus que pudesse agasalhar Seu Filho. Não tinham outros seios para amamenta-lo, nem outra boca para beijá-lo e cantar-lhe cantigas de ninar; tampouco outra mulher que zelaria com amor e devoção durante a infância, adolescência, juventude e maturidade de Jesus. Nós acreditamos num Deus Soberano e este Deus Soberano não daria esta bênção para uma “mulher qualquer”, como eu mesmo já ouvi um pastorzinho pregar sobre Maria! Não! Ela, dentre todas as mulheres de Israel, foi a eleita e se foi ela a eleita era porque era a única!
O nosso Deus não é o “Deus do Acaso”! O nosso Deus é o Deus Soberano, que sustenta e rege o Universo.
Mas eu sei mais sobre Maria: depois que Jesus foi preso, relata os evangelistas, “todos os abandonaram”, todavia, quando abrimos o Evangelho da Paixão, registrado por S. João, quem está lá, aos pés da Cruz no Gólgota? Ela, Maria, a Mãe daquele que estava sendo massacrado, torturado e morto naquele madeiro! Mesmo agonizante, com sede, com dores lancinantes, Jesus, quando viu ali sua Mãe, e junto dela João, que na época era um adolescente, Ele se preocupou com sua Mãe e disse: “Mãe, eis ai teu filho (João)”.
“Filho, eis ai tua Mãe (Maria)”. Deste momento em diante, Maria tornou-se não apenas a “Mãe” de João, mas a Mãe de todo homem e mulher, que, aos pés da cruz, recebem Jesus como Senhor e Salvador.
Nas minhas penúrias e sofrimentos, nas minhas preocupações pastorais e pessoais, nas minhas necessidades mais íntimas e mais urgentes, muitas e muitas vezes, foi no colo de Maria que eu encontrei, assim como Jesus encontrou certamente, tantas vezes, alento, consolo e amor. Você pode me chamar de herege o quanto você quiser, eu sou pastor calvinista e gay, o que você quer mais?, então você pode me chamar de herege, e de todos os nomes inventados ou a inventar sobre os marianos. Eu sou Mariano!
Convido você, neste último encontro do nosso “Portas Abertas” a conhecer a ternura, o carinho e o amor da Mãe Maria. Lança fora todo este lixo doutrinário, que acabou te chutando daquela sua antiga igreja, lança fora tudo o que te ensinaram errado sobre Maria e liberte-se de uma vez por todas deste ranço machista, misógino e desrespeitoso! Jogue-se nos braços, nos mesmos braços que Jesus tantas vezes se jogou! Jogue-se nos braços de Maria e então você experimentará o que até hoje nunca experimentou na sua espiritualidade com Deus: o amor de Mãe.
Você sabia que a primeira parte da chamada oração Ave Maria é bíblica? Sim! Esta primeira parte é a junção da saudação do Arcanjo Gabriel com a saudação da prima de Maria, Isabel, mãe de João Batista, quando recebeu a visita de Maria! Vamos todos unir nossas vozes e juntos recitarmos esta ORAÇÃO BÍBLICA!
“Ave, Maria, cheia de Graça! O Senhor é contigo! Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do seu ventre, Jesus!”
Reflexão Comunitária
1 – Nós na ICM já nos desintoxicamos de muito lixo doutrinário e já nos curamos de muito abuso bíblico que fomos submetidos no nosso passado nas antigas igrejas pelas quais passamos. Nós ainda precisamos de curas e muitos dos que se achegam a nós, domingo após domingo, precisam de cura. Vamos tentar identificar coisas erradas que aprendemos e vamos nos comprometer, ao longo do ano novo que chega, a trabalhar nesses itens, para nos curar de tudo o que de errado nos ensinaram.
2 – Você que chegou agora à nossa Igreja ou que é visitante neste encontro do Projeto Portas Abertas precisa entender uma coisa bem séria: nós não somos a sua antiga Igreja! A ICM é uma igreja com identidade. Somos ecumênicos, inclusivos, somos lutadores pelos Direitos Humanos, portanto, uma igreja militante; nós somos uma igreja que promove e busca o diálogo inter-religioso, ou seja, o diálogo com outras religiões não cristãs. Assim somos nós e nós não temos vergonha de sermos quem somos. Mesmo assim, ainda temos muros para derrubarmos dentro das nossas igrejas. Quais são eles e como nós podemos fazer isso, em amor?
3 – Depois de tudo o que você estudou e ouviu neste último encontro do nosso Projeto Portas Abertas, poderia responder, em voz alta e individualmente, o que agora, Maria é para você?
4 – Não tenha medo das críticas que os demais religiosos, inclusive os chamados inclusivos, e que entendem coisas de maneira diferente da forma que entendemos na ICM. Não temos que ter vergonha de quem somos, ao contrário, temos que nos orgulhar, no bom sentindo, de quem somos. Entenda que somos uma igreja nova, uma nova realidade em sua vida e não mais a sua antiga igreja e sua antiga prática de fé. Reflita sobre isso.
5 – Ser mariano não é ser idólatra! Não confunda as coisas! Jesus é o Senhor! Jesus é o Mediador! Jesus é o Salvador! Jesus tem Mãe. Seu nome é Maria e ela, no seu cântico profético, declarou: todas as gerações me chamarão bem aventurada! Nós, na ICM, combatemos toda e qualquer forma de preconceito, principalmente a misoginia, o machismo e a homofobia (a religiosa, a internalizada e a social). Precisamos desconstruir a imagem de Maria que um dia nos passaram, inclusive os católicos presentes entre nós, para resignificá-la com mais relevância ainda em nosso meio! Trabalhemos arduamente nisto no ano de 2012. Vamos combater a misoginia, o machismo, as homofobias e todos os demais preconceitos que nos afastam – são muros – para que haja esperança em nós. Façamos isso estudando profundamente as Escrituras, nos dedicando realmente à luz da sabedoria e do conhecimento, para que as trevas da ignorância se afastem de nós. Não temamos! Emanuel, o Deus Conosco, está entre nós e nos convida, neste Natal, para estarmos no Presépio, com Maria.
Feliz Natal!
Reverendo Márcio Retamero
Pastor da ICM Betel RJ e da Igreja Presbiteriana da Praia de Botafogo.

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