Projeto Portas Abertas Advento 2011 - 3º Encontro


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IGREJA DA COMUNIDADE METROPOLITANA DO BRASIL

DEUS AINDA FALA:
DERRUBANDO MUROS, CONSTRUINDO ESPERANÇA!

PROJETO PORTAS ABERTAS

ADVENTO 2011

3º ENCONTRO

Tema: Como viver enquanto o Senhor não vem?

Texto-Base: 1Ts 5.16-24

Versículo-chave: “Sejam alegres em qualquer situação; orem o tempo todo; deem graças a Deus, não importa o que aconteça. É como Deus quer que vocês, que pertencem a Cristo Jesus, vivam neste mundo”.

A Primeira Carta do Apóstolo Paulo aos Tessalonicenses é o primeiro texto do Novo Testamento, ou seja, é o texto mais antigo que compõe o Segundo Testamento. Foi escrito por volta do ano 50-51, quando Cláudio era o Imperador de Roma.

Tessalônica era uma cidade ímpar da Grécia. Situava-se no Norte e era um importante porto marítimo. Como toda cidade portuária, circulava ali, além de seres humanos, as ideias que rondavam as cabeças do mundo. Muitas eram as religiões que conviviam na cidade de Tessalônica, teologias das mais diversas, entre elas, o judaísmo, que ali possuía uma sinagoga e muitos pagãos eram o que as Escrituras chamam de prosélitos, ou seja, pessoas que não nasceram na nação judaica, mas se fizeram judeus; bem como os chamados “adoradores do Deus Único”, ou seja, pagãos que frequentavam a sinagoga, mas que não tomaram ou não se tornaram judeus, como os prosélitos, eram simpatizantes da fé judaica e da profissão de fé num Único Deus, Criador do Universo, revelado na Bíblia Hebraica.

Paulo chega a Tessalônica na sua segunda viagem missionária, muito provavelmente no inverno do ano 49-50. Com ele estava Silvano (Silas) e Timóteo, companheiros na evangelização. Permaneceram em Tessalônica mais ou menos três meses, mas foi o tempo suficiente para que fundasse ai uma comunidade de fé cristã.

A maioria dessa comunidade de fé cristã recém-fundada era formada não pelos judeus, mas pelos pagãos, os prosélitos e os “adoradores de Deus”, que ouviram “A Mensagem” de Jesus Cristo e como já conheciam a Bíblia Hebraica, entenderam que as profecias apontavam para Jesus como O Messias e creram nisso.

A conversão dessas pessoas ao cristianismo irritou profundamente os judeus de Tessalônica, pois as provas históricas demonstram, conforme nos escreve John Dominic Crossan no seu magnífico livro “Em Busca de Paulo”, que essas pessoas eram importantes na sustentação financeira da sinagoga e das obras sociais da sinagoga. Portanto, “perder” tais pessoas para o cristianismo significava não apenas perder fiéis, mas perder também sustentação financeira.

Para boicotar o trabalho de Paulo, Silvano (Silas) e Timóteo, os judeus acusaram Paulo de agir contra o Imperador, um grave crime. Lucas nos conta tudo no capítulo 17 do seu segundo livro, os Atos dos Apóstolos. Eles diziam que Paulo ensinava que Jesus era Rei e não o Imperador. Jasom, um dos novos convertidos ao cristianismo, foi arrancado de sua casa pelos chefes dos judeus e levado aos magistrados da cidade sob essa acusação, ele acabou preso e só saiu da prisão depois que pagou fiança.

É no contexto desse episódio que Lucas põe na boca de um dos chefes dos judeus a famosa frase: “Estes que têm transtornado o mundo chegaram também aqui” (At 17.6b).

Depois de todos esses transtornos e graves acusações, Paulo e seus companheiros tiveram que deixar a cidade de Tessalônica e sua jovem comunidade de fé e partiram para Bereia (At 17.10-15), mas quando os judeus de Tessalônica souberam que Paulo estava em Bereia pregando o Evangelho, correram para lá, para denunciá-lo e atrapalhar seu trabalho. Novamente Paulo teve que fugir, dessa vez, deixando Silas e Timóteo em Bereia.

A jovem comunidade de fé cristã de Tessalônica não teve muito tempo para ser instruída devidamente por Paulo e seus companheiros, contudo, isso não os desanimava na profissão de fé que Jesus Cristo era O Messias. Agora eles liam a Bíblia Hebraica sob esta chave de interpretação, reconhecendo em várias passagens a figura, a obra, a pessoa de Jesus Cristo. Todavia, muitas eram as perguntas sem respostas, eles estavam ávidos por conhecimento e então através de cartas, escreveram à Paulo suas dúvidas. Paulo mandou Timóteo para instruí-los na fé em Cristo. Quando Timóteo retornou de sua viagem à jovem comunidade de Tessalônica, encontrou Paulo em Corinto e deu as boas notícias: a Igreja, embora jovem e cheia de dúvidas (principalmente acerca da segunda vinda de Cristo) crescia e se fortalecia. Paulo escreve aos tessalonicenses e envia novamente Timóteo como portador da carta e nela, ele corrige alguns pensamentos doutrinários, responde perguntas e os encoraja na fé. Esta carta é a nossa Primeira Carta aos Tessalonicenses.

O texto que hoje lemos é o finalzinho da epístola de Paulo aos tessalonicenses. Depois de ter dado instruções acerca da segunda vinda de Cristo (Advento) (1Ts 4.13-18) e de exortá-los à vigilância para este “gran finale” da história dos homens (1Ts 5.1-11); Paulo ensina aos Tessalonicenses como viver enquanto o Senhor não vem, como deve ser a existência daquele e daquela que crê em Jesus como Senhor e Salvador.

1 – Sejam alegres em qualquer situação;

2 – Orem o tempo todo;

3 – Deem graças a Deus, não importa o que aconteça;

4 – Não apaguem o Espírito;

5 – Não reprimam os profetas do Senhor;

6 – Não sejam ingênuos, mas críticos, analisando tudo à luz da razão e da fé e retendo apenas e somente o que é bom, útil e verdadeiro;

7 – Joguem fora tudo o que tiver ligação com o mal.

“Que o próprio Deus, o Deus que deixa tudo santo e completo, faça vocês santos, completos e ajustados – espírito, alma e corpo – e os mantenha preparados para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo. Pois quem chamou vocês é de total confiança. Se ele disse, é porque vai fazer!” (1Ts 5.23-24, versão A Mensagem).

Neste pequeno trecho da Primeira Carta de Paulo aos Tessalonicenses, o primeiro texto a ser escrito pelo Apóstolo dos Gentios, o mais antigo texto que compõe o Novo ou Segundo Testamento, temos instruções que ainda são válidas, urgentes e importantes para nós, cristãos dos nossos dias, do século 21, principalmente, nós, comunidade de fé cristã INCLUSIVA.

Assim como os nossos irmãos e irmãs de Tessalônica devemos ser alegres em todo tempo. Isso não significa que devemos ser idiotas delirantes! Sofremos e choramos com o mal e o sofrimento. O que Paulo ensina é que a alegria do cristão deve ser supra circunstancial, que não devemos pôr nossa alegria nas situações passageiras, mas que devemos pôr nossa alegria nas coisas eternas. Quando miramos o que é Eterno, o efêmero se despotencializa de toda carga negativa e da influência negativa que as circunstâncias que rotulamos de más ou boas podem ter sobre nós. A nova criatura em Cristo Jesus vive na alegria, em alegria, em qualquer situação, pois sabe que somos peregrinos aqui e que o Senhor voltará. Tudo passa!

O cristão que vive alegre é aquele que ora o tempo todo. Orar em todo tempo não significa ficar de joelhos, em contemplação passiva em todo tempo. Ora-ação. O cristão contempla o Eterno e se ajoelha diante Dele, mas também age, pois ação é oração. Portanto, oramos quando estudamos, oramos quando trabalhamos, oramos quando nos relacionamos, oramos quando fazemos amor com responsabilidade, oramos quando acordamos e quando dormimos, oramos em todo tempo. Toda uma vida de oração. Não apenas aqueles momentos em que paramos –momentos muito importantes, sem os quais, a vida cristã é uma falácia- mas também os momentos em que estamos envolvidos em atividades. Tudo o que fazemos deve ser santificado, separado ao Senhor como uma oração.

Vivendo assim, daremos graças a Deus, não importando o que esteja acontecendo no momento. Louvamos ao Senhor em todo tempo quando vivemos uma vida de oração. O louvor tem o poder de despotencializar em nós as más notícias, os dias maus, as más influências, as decepções, o mal humor, e tudo o mais que faz parte da existência humana, ou como diria Chico Buarque, da “roda viva da vida”. O louvor é terapêutico.

A nova criatura em Cristo Jesus jamais apaga o Espírito. Certamente Paulo escreve isso aos nossos irmãos de Tessalônica porque as manifestações carismáticas e os dons do Espírito já estavam operando naquela comunidade de fé. Constitui uma comunidade de fé as manifestações do Espírito Santo. Uma comunidade de fé sem os dons do Espírito Santo – cujo maior deles é o Amor – é uma comunidade de fé morta! Sendo assim, é importante não temer as manifestações do Espírito e seus dons na comunidade de fé. Como diz a canção: “tudo o que Jesus conquistou na Cruz é direito nosso, é nossa herança. Todas as bênçãos de Deus pra nós, tomamos posse, é nossa herança!” Os dons do Espírito atuam na Igreja para sua edificação e crescimento – desde os dons de línguas, a chamada glossolalia aos dos de profecia e revelação – não devemos temer as manifestações do Espírito, tampouco extingui-las, é o que Paulo nos ensina, contudo:

“Não sejam ingênuos, mas críticos, analisando tudo à luz da razão e da fé e retendo apenas e somente o que é bom, útil e verdadeiro...” se abrirmos mão da razão, viveremos uma fé infantil e tola, irresponsável, imatura, vã, que não nos fará crescer. Uma pessoa cheia do Espírito é uma pessoa que muito ama, seus frutos corroboram a unção que está sobre sua vida, bem como sua responsabilidade e serviço à comunidade de fé. Podemos crer em todos os dons do Espírito e eles são para nós e não morreram, nem foram extintos, como muitos querem ensinar, contudo, o maior dos dons do Espírito é o Amor. Uma pessoa que recebe revelações, fala em línguas, tem visões etc., mas não ama, não tem o amor como o sinal de sua existência em Cristo, não é uma pessoa verdadeira e cheia do Espírito – pode ser que ela seja uma pessoa, no mínimo equivocada e no máximo, uma pessoa doente psiquiatricamente falando – a árvore deve produzir frutos de testemunho. Jamais extingamos o Espírito, mas seja o nosso culto espiritual e racional. Sejamos críticos, sempre em amor, retendo apenas o que é bom, útil, edificante e verdadeiro.

Por fim, devemos lançar fora tudo o que tem relação com o mal e com o que não promove o amor. A comunidade de Cristo é a comunidade do Amor: “nisto conhecerão que sois meus seguidores: se vos amardes uns aos outros”. A comunidade de Cristo é aquela que ama o mundo e que serve o mundo. A comunidade de Cristo é aquela que está em rota de colisão com o sistema mundo, que não ama, que não produz amor, que não quer saber de outra coisa senão espalhar e semear o ódio.

Portanto, o amor, que é o vínculo da perfeição, é o sinal irrefutável do novo nascimento da criatura humana em Cristo e de uma comunidade de fé cristã. Se este sinal não está em nós, somos apenas e tão somente religiosos, a pior raça de gente que pode existir na terra!

Para que haja amor em nós e entre nós; para que sejamos nós, as novas criaturas, construtoras da civilização do amor, não podemos compactuar com o mal, nem dentro, nem fora de nossos muros. Tais muros devem ser derrubados, para que haja esperança e amor! Temos que derrubar o muro da homofobia internalizada e da homofobia manifesta; o muro do preconceito racial e de origem; o muro da maledicência e da fofoca; o muro da soberba; o muro da misoginia e do machismo; o muro da ignorância, da falta de estudo sério e profundo das Escrituras; o muro da inveja, da falta de educação, da falsidade do ser. Tudo o que compactua com mal, deve ser jogado fora, no lixo, por nós que somos igreja do Senhor. Se fizermos assim, viveremos no Caminho durante a nossa peregrinação, aguardando o Senhor que vem, pois Ele virá! Maranata! Ora, vem, Senhor Jesus!

Reflexão Comunitária

Analisemos cada um dos sete pontos instrutivos do Apóstolo Paulo para a comunidade de Tessalônica a partir da nossa realidade comunitária, verificando, com exemplos, se estamos ou não vivendo conforme as instruções apostólicas. Cada ponto deve ser profundamente analisado, em verdade, e todos devem participar da conversa. Precisamos tratar esses sete pontos de maneira a mais verdadeira possível, não mascarando nossa realidade, para que haja correção verdadeira no que precisamos corrigir e reafirmação onde estamos corretos.

Por fim, oremos, pedindo ao Senhor que vem que nos ajude na peregrinação, vivendo conforme as regras que Paulo dá aos Tessalonicenses e, através deles, a todos nós. Peçamos ao Senhor que neste Advento sejamos, de fato, comunidade de fé cristã, testemunhas de Jesus nesta terra, construtores da civilização do amor, seguidores de Jesus, cujo único e irrefutável testemunho é o amor com que nos amamos uns aos outros e ao mundo no qual estamos peregrinando.